LIÇÕES DA COPA UEFA E DA LIBERTADORES
Belos espetáculos futebolísticos nos proporcionaram os europeus com a copa UEFA. Jogos disputados, viradas sensacionais do placar, grandes jogadas e, sobretudo, muita garra por parte dos jogadores envolvidos. E técnica, também.
Se não houve grandes avanços táticos, em termos de evolução do futebol, ficou, no entanto, muito claras as seguintes lições.
Primeiro, a valorização da posse de bola. Não a posse com exaustivos passes laterais, a que nos acostumamos ver em muitos times treinados pelo Parreira, por exemplo. Mas a posse de bola com virada de jogo, em sentido vertical, com deslocamentos constantes de todos os jogadores, até encontrar a brecha necessária na defesa adversária.
Segundo, o preparo físico e psicológico dos jogadores. O futebol, dos esportes coletivos, é o que mais exige de inteligência e concentração de seus praticantes. Não admite jogador burro: é necessário um tipo de inteligência específica para esse esporte, não necessariamente medida por teste de QI ou coisa que o valha. É um tipo de inteligência emocional e estratégica, de fazer a jogada pensando nas suas conseqüências. Sem dúvida, os noventa minutos de cada partida são, por isso, extremamente desgastantes para quem esteja concentrado o tempo todo. Nesse quesito, a Turquia e a Alemanha exemplificam bem o que eu quero dizer. Para os jogadores desses países, não havia jogo perdido, até que o juiz apitasse o final. Sem dúvida, uma grande lição.
Terceiro, o toque de bola exige volantes que saibam marcar bem, claro, mas principalmente que saibam sair jogando, que tenham qualidade de passe. Não basta destruir, tem que saber, também, construir a jogada, armar o contra-ataque, ou seja, roubar a bola e colocá-la nos pés do companheiro bem posicionado para dar prosseguimento à jogada. E, nesse quesito, por incrível que possa parecer, um brasileiro exemplificou bem esse tipo de comportamento. Embora não seja um craque, Marcos Sena, jogando pela Espanha, mostrou determinação na marcação e inteligência e qualidade no passe da bola. Aliás, não foi a Espanha a campeã por qualquer acaso. Foi a seleção que melhor exemplificou os três quesitos do futebol moderno, ou, pelo menos, atual, praticado durante a Copa UEFA.
Os árbitros. São, quase sempre, os vilões de um esporte que se moderniza. Erram muito, e prejudicam o jogo. Dessa vez, no entanto, encontraram uma boa (e cara) estratégia: pagaram muito bem a cada juiz (dez mil euros por partida, mais diária) e exigiram, por isso, uma preparação rigorosa. Mas valeu a pena: o número de erros importantes (aqueles que modificam resultados de uma partida) foi praticamente zero. Sempre há, claro, reclamações a respeito de uma ou outra jogada, de um ou outro pênalti mal marcado ou não marcado, mas, no frigir dos ovos, finalmente um torneio foi decidido pelos jogadores, não por erros de arbitragem.
Finalmente, a Libertadores. Podem-se dizer mil coisas a respeito da derrota do Fluminense para a LDU, nos pênaltis, em partida emocionante, no Maracanã lotado. Pode-se falar em maldição do importante estádio, em finais de times brasileiros. Pode-se falar até em maracanazo. Mas, há verdades que saltam aos olhos. Primeira, a defesa do Flu é muito ruim. Segunda, centroavante que se preze não perde gol como perdeu o Washington, quando já estava um a zero para o adversário. Terceira, só ganha a Libertadores o time que tiver técnica, concentração e, principalmente, garra. Como os europeus. E o Fluminense não teve o suficiente desses três quesitos. Já a LDU, sim. Jogou com inteligência, com concentração e com garra. Perdeu o jogo, mas ganhou o título.
Pênaltis. A decisão por pênaltis exige um outro cuidado do treinador: a escolha dos batedores e sua ordem. Está bem, você pode dizer que o craque do time deve ser o primeiro a bater o pênalti. Nem sempre. Veja o caso do Thiago Neves. Foi o nome do jogo: correu, lutou, fez três gols. Estava extenuado, física e psicologicamente. Não devia ter a responsabilidade de ser um dos primeiros a bater. Talvez nem devesse fazê-lo. Errou por puro cansaço. Acho que escolheria a zaga, para começar. Os zagueiros, embora também se desgastem, em geral correm menos e quase sempre enchem o pé, não procuram sutilezas de craque, na hora de tocar a bola, o que acaba muitas vezes nas mãos de goleiros espertos (e bons, claro).
Uma última observação sobre cobrança de pênaltis em decisões. Pode ser, apenas, desconfiança minha, mas cobradores canhotos, parece, erram bem mais do que os destros. E o Fluminense comprovou isso: os três primeiros cobradores eram canhotos e só um acertou. Gostaria de ver uma estatística a respeito, mas toda vez que vejo a bola na marca da cal e um cobrador canhoto, já me preparo para o erro. Talvez seja só implicância minha.
Enfim, da Copa da UEFA e da Libertadores, há muitas lições que nossos treinadores e nossos jogadores precisam aprender. Para não continuarem a dar vexames por aí, principalmente nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 2:30 PM
Segunda-feira, Junho 09, 2008
LUA QUEBRADA
Um professor e sua aluna. Tudo os separa, nada os une. A não ser a paixão. Uma paixão sem limites, vivida com toda a intensidade da experiência e da juventude. Um livro forte, pela emoção, pela cumplicidade, pelo erotismo. Uma história que mexe com todos os sentidos do leitor, até a última linha. Experiência única na Literatura Brasileira, LUA QUEBRADA é um livro imperdível e inesquecível.
Autor: Isaias Edson Sidney
Publicação da Biblioteca24x7.
Só disponível pela Internet, no endereço abaixo (categoria: ERÓTICO).
http//www.biblioteca24x7.com.br
ISAIAS EDSON SIDNEY - 4:21 PM
Sexta-feira, Novembro 23, 2007
BRASIL 2 X 1 URUGUAI: UMA VITÓRIA E SEUS DILEMAS
O jogo de quarta-feira (21.11.07), no Morumbi, traz duas conclusões importantes: a primeira é que o estádio do São Paulo está longe de ter estrutura para receber jogos da Copa de 2014 e, segunda, que a seleção nacional precisa achar, urgente, padrão de jogo.
Morumbi. Sem dúvida, o estádio é bonito, grande e bem cuidado. Mas, não oferece nenhum conforto aos torcedores. Seu acesso é quase impossível, situado que está num bairro densamente povoado. Somente uma futura estação do metrô poderá resolver, em parte, tal problema. Ir de carro torna-se um tormento, não só por causa dos congestionamentos (normais numa cidade como São Paulo), como, para estacionar, cobram-se preços abusivos (chegaram a pedir 100 ou 150 reais por uma vaga sem nenhuma garantia ou infra-estrutura, próxima ao estádio) e a promessa de construção de um estacionamento, por parte do São Paulo, ainda é, apenas isso, uma promessa, que, dependendo dos valores cobrados, continuará a ser um tormento para o torcedor. Acomodações: nota zero. A entradas numeradas são uma ficção. Quem chega primeiro toma os melhores lugares. Vendem-se ingressos (ou deixam entrar torcedores, no velho jeitinho brasileiro) em quantidade acima da capacidade de certos setores, principalmente nas arquibancadas. Senão, não haveria tanta gente nos degraus de circulação, o que compromete a segurança. Ambulantes vendem de tudo, tanto na porta do estádio, quanto no seu interior, a preços ofensivos. O mesmo vale para lanchonetes credenciadas, com seus preços extorsivos. Enfim, para ser um estádio moderno, de qualidade internacional, digno de jogos de copa do mundo, o Morumbi ainda está na idade média.
Seleção. Somos todos técnicos de futebol, no Brasil, mas não é preciso ser gênio para constatar que a seleção está escalada de forma errada. E o problema é o excesso de craques, por mais paradoxal que isso possa parecer.
Um pouquinho de história: todos endeusam a grande seleção de 1970. Mas é preciso lembrar: o técnico Zagallo teve quarenta dias para treinar aquele time. Conseguiu acomodar todos os craques: Pelé, Tostão (um era reserva do outro, lembram? Não podiam jogar juntos, pois tinham as mesmas características), Rivelino, Gérson, Piazza e Clodoaldo. E ainda havia Jairzinho. E ainda havia Carlos Alberto. Enfim, houve tempo para que os talentos se readaptassem e se encaixassem. Piazza acabou na zaga; Rivelino e Gérson, ambos canhotos, conseguiram encontrar seu lugar em campo; Clodoaldo foi o que se viu; Tostão passou a centroavante, no sacrifício de jogar quase sem bola, abrindo as defesas adversárias, para que Jairzinho fizesse a festa. Foi, então, que o talento de cada um aflorou. Mas foram necessários muito treino, muita conversa, muitos acordos.
Agora, não. O tempo para treinar para as eliminatórias tem sido de apenas três dias! Então, o que o treinador tem de fazer?
Aí é que, parece-me, está o ponto fraco de Dunga. Porque eu acho que um treinador de seleção tem dois caminhos a seguir: ou ele tem um esquema de jogo na cabeça e convoca os jogadores capazes de cumprir esse esquema ou procura um esquema de jogo que se adapte aos jogadores que ele não pode deixar de convocar ou de escalar. A seleção de 70 é o exemplo da segunda opção, mas teve de trabalhar muito, para chegar ao resultado que se viu.
O que eu quero dizer: Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Kaká podem, sim, jogar juntos, mas precisariam de um tempo bastante grande para encaixar seus estilos, readaptar-se em prováveis novas funções, além de necessitarem do talento defensivo de outros jogadores de meio-de-campo, que é onde tudo se decide no futebol. Como são jogadores de características ofensivas, com eles em campo e mais um centroavante, o Brasil passa a jogar num esquema suicida de quatro, dois, quatro. Ao fazê-los recuar, transformando-os em volantes, como aconteceu no jogo contra o Uruguai, o meio-de campo se desorganiza completamente, parecendo um amontoado de craques que não se conhecem, que não sabem jogar uns com os outros. Um meio-de-campo que não sabe marcar, que se perde na armação, que sobrecarrega a defesa. E mais: armar para quem, se há um só lá na frente, um centroavante que se torna inútil, como se a seleção jogasse com dez.
No jogo contra o Uruguai, prevaleceram a raça e a persistência do Luís Fabiano, que inventou o primeiro gol (porque aquilo foi pura invenção de quem tem faro e sorte) e teve boa colocação e precisão de chute, no segundo. Coisa que o Wagner Love, com certeza, não tem.
Sem dúvida, taticamente, foi uma das piores apresentações da seleção brasileira, esse jogo do Morumbi. Dunga pareceu totalmente desorientado, confiando apenas na capacidade de improviso dos três craques, Ronaldinho, Kaká e Robinho que, diante da boa marcação da seleção uruguaia (que não é lá grande coisa, senão teria ganhado o jogo) se perderam e, sem um esquema tático definido, o que se viu foi o domínio total uruguaios, para desespero da torcida e do próprio treinador brasileiro.
Dunga, sem dúvida, representava a esperança de renovação do selecionado, depois do vexame da última copa. Ainda pode recuperar a confiança do torcedor brasileiro. Mas, terá de repensar seus conceitos e, até mesmo, recuar a posições anteriores. Sem tempo para treinar, com a pressão das eliminatórias, só lhe resta sacrificar um ou dois dos craques, e armar esquemas não necesssariamente mais defensivos, porém mais próximos das características dos jogadores. Um meio-de-campo forte não quer dizer, necessariamente, retranca. Haja vista o time campeão brasileiro, o São Paulo, no qual o centroavante marca poucos gols, mas todo mundo se defende e o meio-de-campo chega fácil e rápido ao ataque, marcando muitos, muitos gols. Mas, para isso, o Murici teve todo o primeiro turno do campeonato para impor tal esquema. O São Paulo teve perdas importantes de jogadores, mas manteve uma base sobre a qual o treinador trabalhou duramente e o time cresceu, pouco a pouco, mas de forma consistente, para chegar a ser quase invencível.
Enfim, ainda há esperança. Mas, não se iluda o torcedor: só poderemos ver de novo jogar juntos os três grandes craques, se o Dunga fizer o milagre de achar, assim de repente, um esquema em que eles se encaixem ou se tiver tempo, muito tempo, para treinar. Como milagres, em futebol, só acontecem quando há esforço, treino e superação, só podemos mesmo esperar que prevaleça, para os próximos jogos dessas eliminatórias, o bom senso do treinador que, a essa altura do campeonato, não tem mais garantida sua permanência até a copa de 2010.
P.S. A Argentina, com seu belo futebol, sucumbiu à Colômbia, lá no alto do morro, onde só o condor devia jogar futebol. É claro que a estupidez do Tévez, ao ser expulso aos vinte dois minutos do primeiro tempo, contribuiu um pouco.
isasidney@uol.com.br
ISAIAS EDSON SIDNEY - 12:05 PM
Segunda-feira, Outubro 15, 2007
E ELES INSISTEM...
Brasil e Colômbia (14.10.2007).
No alto do morro. A mais de dois mil e seiscentos metros de altitude. Um encontro de dois times, apenas. Futebol, mesmo, só num ou noutro lance fortuito. Porque, lá no alto do morro, nem mesmo os jogadores colombianos parecem mais acostumados. Jogam, quase todos, em times de outros países, em condições normais de altitude.
Foram noventa minutos de um futebol arrastado. Sem brilho. Sem criatividade. Porque, pelo que dizem os especialistas, na altitude ou você pensa, ou você corre. Fazer as duas coisas, impossível. E futebol exige isso, pensar e correr. Passar e deslocar-se.
Houve um lance bobo, que observei, bem no meio do campo: Ronaldinho tocou para Robinho, que devolveu à frente, como seria o normal. Mas, cadê o Ronaldinho? O fôlego, que fica pouco, deixa o jogador mais lento, como se estivesse com preguiça. Até o goleiro Júlio César estava estranho: desde o início, eu reparei que ele demorava muito a repor a bola. Não acho que fosse cera, acho que era lentidão do pensamento, além da necessidade de esperar que o time, lentamente, se posicionasse.
Enfim, um jogo em câmera lenta. Sonolento. Que só a teve a emoção de uma cabeçada colombiana, bem defendida pelo Júlio César, e mais nada. Restava torcer para o juiz, para a bola, para qualquer outra coisa, porque seria inútil esperar uma jogada mais trabalhada, um lance de genialidade. Gol, então, só se fosse de bola parada, por brincadeira de algum espirito de porco que estivesse no gramado. Como não existem espíritos, nem de porco nem de outra coisa, ficou tudo igual. Na pasmaceira.
E eu pergunto: por que eles insistem? Por quê? A dona FIFA já até ameaçou proibir jogos em cima do morro, mas recuou. Por quê? Eles, às vezes, ganham um ou outro jogo lá, em cima do morro, mas depois apanham como gente grande nas altitudes normais dos outros países. E, pelo que se viu, ontem, até os jogadores colombianos sentiram a altitude. Ou será que eles são, mesmo, assim tão ruins?
ISAIAS EDSON SIDNEY - 5:32 PM
Quinta-feira, Setembro 27, 2007
QUE TIME É ESSE?
Quando ganharam o PAN, entrei na paranóia que eu sempre condeno do uso do mas. Pensei: como jogam bem, mas o time dos Estados Unidos (sempre muitíssimo forte) não veio com suas principais jogadoras. Besta que eu sou. Esse time é bom, muito bom, é pra lá de bom. É ótimo.
Claro, estou falando de Marta e companhia. A melhor jogadora de futebol do mundo tinha, afinal, um time com quem jogar. Mas... (a maldita adversativa aí de novo) é cedo ainda. Vamos ver na Copa do Mundo, na China.
E aí veio a primeira fase: em 4 jogos, 13 gols feitos e dois apenas tomados. Vítimas: Nova Zelândia, China, Dinamarca e Austrália. Deram show, só bobearam um pouco contra a Austrália, que chegou a empatar de dois a dois. Mas... olha aí a danada de novo: vêm aí as meninas do Estados Unidos...
E não é que, como se fosse não futebol que se vê, mas futebol que se sonha (quando a gente dorme e sonha que nosso time deu um baile no adversário!), as garotas estadunidenses não viram a cor da bola! Levaram de quatro e podia ter sido mais... Um jogo histórico, um jogo em que a Marta até inventou um drible que eu nunca tinha visto ! Quatro a zero. Nos Estados Unidos, quase sempre o melhor time de futebol feminino do mundo!
Aí, tirei definitivamente o mas de meus elogios.
Que time é esse?
Um belo, belíssimo, time, sem dúvida nenhuma, o time de Marta e companhia. Um time de belas jogadas, de belos gols, de belos cabelos, de belos rostos... Poque essa seleção é bela, belíssima, em todos os aspectos.
Ainda não ganharam a Copa do Mundo (falta a Alemanha), mas... aí, sim, vou escancarar uma adversativa: nem precisa ganhar, não. Já fizeram tudo o que um time de futebol tem de fazer: já jogaram com raça, já jogaram com prazer, já jogaram com velocidade, já jogaram com graça...
O título, se vier, será apenas uma piranha a mais nos cabelos de nossas meninas...
E nem vou chorar, por isso, nem reclamar que elas não têm apoio aqui, no País do Futebol, mesmo jogando como estão jogando. Merecem, as nossas belas meninas, ser recebidas com festa, em desfile de carro de bombeiro, com ou sem a taça. Pela alegria que trouxeram a esse nosso atual nem tão alegre futebol de meninos que mal saem dos cueiros e já vão pr’as europas!
Que time é esse? Um time cheio de raça, cheio de graça!
P.S.:
Titulares: Andréia, Aline, Tânia e Renata Costa; Ester, Maycon, Formiga e Daniela Alves; Ela e Cristiane.
Técnico: Jorge Barcellos.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 4:43 PM
Quarta-feira, Setembro 19, 2007
SÓ OS PERNAS-DE-PAU SE IRRITAM COM A CRIATIVIDADE
Data: 16 de setembro de 2007. Local: Mineirão. Jogo: Atlético e Cruzeiro, pelo Campeonato Nacional. Alguns poucos detalhes: o Cruzeiro faz dois a zero. O Atlético vira para três a dois. Cruzeiro, de novo, na frente: quatro a três.
Não é preciso mais, para definir um jogo eletrizante.
Quase no final, Kerlon, o garoto cruzeirense que está sendo lançado aos poucos, entra em campo. Já é famoso: inventou o drible da foca. Consiste em fazer embaixadinhas com a cabeça e entrar na área. Aos adversários desesperados, cabe apenas a falta, às vezes o pênalti, para impedir a progressão para o gol. É o que, em geral, fazem os beques atrabalhoados. Mas, não o Coelho, lateral do Atlético. Irritado, entra com violência no Kerlon e arma-se a confusão.
Ora, senhor Coelho: irritado por quê? Por uma bela jogada, que levanta o moral do time, que faz vibrar o torcedor? Não se pode mais exercitar a arte do drible, da criatividade?
Lembram o Garrincha? Quer dribles mais desmoralizadores do que os que ele aplicava em seus marcadores, os joões que, muitas vezes, acabam sentados vergonhosamente, enquanto o diabo de pernas tortas passava como um passarinho sem asas?
E o Rivelino, com seu famoso elástico? Não era, também, para desmoralizar o seu adversário? E o Robinho, com suas célebres pedaladas, para assustar e desorientar os marcadores ineptos, diante da novidade?
E nem vamos lembrar as jogadas de Pelé e Maradona. Nem a folha-seca de Didi. Nem os dribles desconcertantes de Ronaldinho Gaúcho. Nem tantos e tantos dribles de deixar o adversário sem ação, como a meia-lua (ou drible da vaca, nome que eu acho mais engraçado), os chapéus, as embaixadas... Enfim, há um repertório de jogadas bonitas, que têm, sim, o objetivo de superar o adversário, de desmoralizá-lo um pouco, mas não de irritá-lo.
Mesmo quando a jogada é de deboche, não se justifica a violência. A falta é do jogo, e ninguém que se julgue humilhado pode ser condenado por fazê-la. Mas, não precisa ser com irritação, com ódio, com violência, com o intuito de quebrar o adversário, só porque ele é tecnicamente diferenciado. Eu disse difirenciado: nem precisa, portanto, ser melhor.
E Kerlon, o menino do drible da foca, embora seja um bom jogador, é ainda apenas um jogador diferenciado. Tem um longo caminho para chegar a craque. Se os coelhos da vida deixarem. Poque, pela violência e pelo ódio demonstrados pelo defensor ao jovem talento, só resta a ele voltar à mediocridade ou arriscar-se a levar uma botinada de um grosso qualquer e abandonar para sempre o futebol.
E falando em abandonar para sempre, acho que o gesto do Coelho não é caso para simples suspensão: devia ser proscrito para sempre dos campos. Porque futebol é arte, é vida, nunca violência, nunca ódio, principalmente contra uma jogada que, pode, sim, ser desconcertante, mas é uma bela jogada.
Não devemos ter complacência com os violentos. Não devmos ter complacência com os que odeiam o belo. Punição, e punição exemplar para eles. E vivam os kerlons, os rivelinos, os ronaldinhos, que é deles a história do futebol, não desse bando de pernas de pau, que só sabem dar pancada. Nem dos que os defendem.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 1:47 PM
Terça-feira, Julho 17, 2007
SELEÇÃO X CRÍTICA
Criticar é uma arte. Há de haver sensibilidade. Há de haver conhecimento. Há de haver, sobretudo, sobriedade. Desancar por desancar não é crítica. Ver apenas o lado ruim também não. Esbravejar, então, nem pensar. Crítico que berra, que xinga, que esperneia não é crítico. É torcedor. E há críticos que esbravejam até escrevendo!
Acho que isso vale para qualquer arte de criticar, seja ela voltada para a Literatura, o Cinema, as Artes Plásticas, o Teatro... Creio mais: a função do crítico é, por mais que ache essa palavra meio burocrática, didática. O crítico ilumina a obra para o público. E também para o autor. Para isso, não precisa ferir, não precisa cutucar suscetibilidades. Há que se respeitar o autor, sempre. Por pior que seja a sua obra. Talvez seja preferível omitir-se a ver como obrigação o fato de arrasar uma obra de autor principiante. Que se comprometa o didatismo. Ou, então, que se faça a crítica de tal forma que não se espezinhe, que não se tripudie. Não pode o crítico ter ranços de sadismo.
Futebol. Futebol é paixão, emoção, coração batendo a mil, irracionalidade. Parece bater de frente com a crítica, que pede racionalismo, contenção. Portanto, crítico de futebol, para mim, é ave rara. O que temos por aí é comentarista, que se arvora em crítico. Poucos, pouquíssimos são os verdadeiros críticos de futebol. E não me incluo entre eles. Porque também sofro, também torço, também me emociono.
Querem ver por que a emoção predomina, quando se trata de futebol? Alguém sabe a razão por que torcemos (e, às vezes, loucamente) por um time de futebol? Pode-se dar desculpas: influência disso ou daquilo, na infância. Mas, razão, mesmo, motivo certo, ninguém é capaz de produzir. Só sabemos esse é o nosso time. E, já no colocar do possessivo, revelamos o quanto é subjetiva a escolha. O futebol é, de todos os esportes, o que mais atinge a nossa subjetividade, por tudo o que ele representa de atavismo, de lutas ancestrais, de capacidade de organizar e, ao mesmo tempo, de improvisar.
Nessa última observação está a chave do que entendo por futebol: capacidade de organizar e, ao mesmo tempo, improvisar. Todos os times vitoriosos têm: a) organização tática; b) quebra dessa organização, em algum momento, por algum dos jogadores, quase sempre aquele que é chamado craque do time. Ou seja, sem esquema, sem padrão de jogo, sem conhecimento das possibilidades táticas de organização, mesmo contando com os melhores jogadores, é quase nula a possibilidade de um time, qualquer time, tornar-se vencedor.
Suponhamos que fosse possível reunir num só time: Pelé, Puskas, Maradona, Rivelino, Didi, Garrincha, Zico... Bastam esses sete, ok? Poderiam ser outros sete geniais, fica ao gosto da imaginação de cada um. Muito bem: escalei apenas sete, dos onze possíveis. Deixo os quatro restantes para jogadores bons, de defesa: o goleiro e três zagueiros. Alguém acha que esses sete gênios conseguiriam formar um time vencedor? A resposta é, ao mesmo tempo, sim e não.
Não: seriam globe-trotters, mágicos, sem dúvida, dariam espetáculo, marcariam muitos gols, fariam jogadas fantásticas, num primeiro momento. Mas, bastaria à equipe adversária estabelecer organização tática que fechasse os espaços para a genialidade desses craques, que o caminho da vitória estaria assegurado para esse time. Acho que foi mais ou menos isso o que ocorreu com a Seleção Brasileira de 82, não?
Sim: se conseguissem, através de um treinador também genial, uma organização tática tal que lhes permitisse controlar o jogo com marcação e disposição em campo, para também fechar os espaços, roubar a bola e, principalmente, saber o que fazer com ela em contra-ataques, ou seja, conhecimento do posicionamento uns dos outros. Para isso, no entanto, seria necessário um longo período de treinamentos, de tentativa e erro. Depois que tivessem mentalizado o esquema de jogo, aí, sim, quando necessário entraria a capacidade inventiva de cada um, os dribles, o improviso. E até poderíamos ter um time quase invencível.
Mas o que tem tudo isso a ver com a crítica? Pois, é: voltemos ao início. E juntemos às reflexões anteriores o fato de a Seleção Brasileira convocada pelo Dunga ter sido tão irregular e, no entanto, acabar campeã da Copa América.
A crítica brasileira tem esperneado, quando o treinador valoriza o resultado em detrimento do chamado futebol arte. E quando falam de futebol arte, querem referir-se ao tipo de jogo que consagrou o Brasil: improvisação, beleza, jogo bonito, show para a torcida.
Muito bem: das seleções campeãs do mundo, precisamente a única que jogou feio, que valorizou o esquema em detrimento da capacidade individual foi a de 94, nos Estados Unidos. E ganhou o título porque não encontrou nenhuma outra seleção melhor. Foi a Copa do Mundo mais medíocre da história de todas as copas. Nenhum time se sobressaiu. E, aí, em terra de cego...
Todas as demais seleções campeãs tinham: a) esquema definido e, b) padrão de jogo. Porque, havendo esses dois elementos, florescem as individualidades. Não o contrário.
Dois exemplos extremos: a Seleção de 70 e o Once Caldas, campeão da Libertadores de 2004.
À Seleção de 70 sobravam craques: Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson, Jairzinho, Piazza... Tostão deveria ser o reserva de luxo de Pelé, pois jogavam na mesma posição. Gérson, Rivelino e Piazza também disputariam entre si a mesma posição. E, no entanto, acabaram todos jogando: Tostão como um falso centroavante; Rivelino como um falso ponta-esquerda e Piazza... como zagueiro! Mas, teve essa Seleção mais de quarenta dias de treino e amistosos, para acertar o esquema tático, para que cada um encontrasse o seu lugar em campo e soubesse onde encontrar o companheiro. E o que se viu foi um quase perfeito equilíbrio entre tática e individualidades.
Once Caldas. Um quase desconhecido time venezuelano surpreendeu ao vencer todos os bichos papões da Libertadores, inclusive Santos, São Paulo e Boca Juniors. Se observarmos sua trajetória, veremos que em apenas um jogo marcou mais de dois gols, logo no começo, contra o inexpressivo Fénix, do Equador (três a zero). Além do placar apertado, muitas de suas decisões foram por pênaltis (perdeu a final mundial no Japão também nos pênaltis, para o Porto). Como jogava o Once Caldas? Para desespero de seus adversários, totalmente fechado na defesa, praticamente com uma linha de cinco e outra de quatro jogadores. Prevalecia a paciência, até os últimos minutos, quando o time de repente ia para a frente e conseguia um gol.
Dois times, duas filosofias de jogo. Se a Seleção fosse um time, com certeza, alcançaria outras glórias, outros campeonatos. Mas se o Once Caldas fosse uma seleção, provavelmente teria muitas dificuldades de conquistar uma copa do mundo. Porque lhe faltava o equilíbrio necessário para ser, definitivamente, um grande time: sobrava disciplina tática e faltavam talentos individuais, embora tivesse alguns bons jogadores. Obteve sucesso porque era novidade. Passou.
Voltemos à critica e à Seleção Brasileira. Ao convocar os jogadores, presume-se que um treinador faça uma das seguintes coisas: a) tenha um esquema tático já definido para a Seleção e convoque os melhores jogadores que possam executar, no momento, esse esquema tático; ou, b) convoque os melhores jogadores de cada posição, no momento, e procure um esquema tático que concilie as características individuais com esse esquema.
Qualquer que seja o critério, há que se treinar, para que os jogadores assimilem o esquema e saibam o que fazer com a bola, quando de sua posse. Ou seja, conheça a posição do companheiro, seus deslocamentos etc. A partir daí, prevalece, sempre, a individualidade ou o que eu chamo de falsa improvisação. O jogador talentoso dará um drible desconcertante, fará uma jogada mais elaborada, tentará um chute diferente. Mas isso é só uma falsa improvisação, porque os demais jogadores sabem o que ele pode inventar, e já ficam atentos. Lembram o Sócrates e seu calcanhar? Os companheiros sempre ficavam espertos, sabendo que tal jogada podia ocorrer a qualquer momento e colocavam-se adequadamente.
A criatividade, tão decantada e exigida pelos senhores críticos, só pode nascer de um esquema tático perfeitamente assimilado por todos os jogadores. Porque não adianta absolutamente nada um craque improvisar uma série de jogadas, se seus companheiros não estiverem atentos ou prevenidos para aproveitá-las. E um craque, com raríssimas exceções (que só ocorrem no desespero), só abre a sua caixa de surpresas, quando tem confiança de que sua jogada pode ser aproveitada pelo time ou, se não der certo, ser compensada pela atenção dos companheiros.
Portanto, não adianta absolutamente nada a chamada crítica especializada espernear contra a Seleção de Dunga, agora, porque ele tem tentado montar um novo time. Vai errar, vai acertar. Mas sua permanência no cargo depende de vitórias. Também não adianta absolutamente nada ele montar um time de artistas que não consegue vencer. Não sei se ele vai ficar ou não, mas é um início de trabalho interessante. Tem possibilidades. E o tal futebol arte só vai aparecer, quando ele puder treinar um time convocado segundo seus critérios, com os melhores os jogadores, não importando o nome ou a fama. E estabelecer um esquema e um padrão de jogo para esse time.
Antes disso, é mesmo o futebol de resultados que ele tem de buscar. Como o que obteve ao ganhar a Copa América. Que os comentaristas esportivos deixem o Dunga trabalhar, sem histerismo. Basta olhar para a Argentina: tinha um bom time, um bom padrão de jogo, esquema tático, jogadores que desequilibravam e tudo o mais, mas chegou na hora de a onça beber água, o que aconteceu? A onça virou gatinho, subiu no telhado e... Bem, o que eu quero dizer, mesmo, é que é preciso muita calma: o futebol brasileiro pode ter tido grandes fracassos, mas deve ser sempre respeitado. Inclusive e principalmente pela crítica.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 3:52 PM
Segunda-feira, Julho 16, 2007
ARGENTINA: MAIS UMA VEZ, VÍTIMA DOS AMARELINHOS
Para a Copa América, Dunga não pôde contar com nove jogadores, por vários motivos que nem valem a pena comentar aqui. Nove! Convocou, portanto, os que estavam à disposição. E tentou armar um esquema tático com os seus preferidos no meio de campo: Elano e Diego. Não deu certo. Ambos estavam fora de ritmo, fora de forma, sem o brilho que mostraram em outras ocasiões. Podem ter nova oportunidade? Claro: são grandes jogadores. Mas não estavam em bom momento, física e mentalmente.
Com várias mudanças aqui e ali, o time foi-se acertando durante a competição.
Nos três jogos da primeira fase (México, derrota de dois a zero; Chile, três a zero; Equador, um a zero), o que se viu foi um time que alternava bom futebol com uma total falta do que fazer com a bola. Mas, o esquema não era de todo ruim, apesar das críticas. Não era, claro, nem o time do Dunga nem do torcedor nem dos entendidos em futebol. Era, apenas, o time possível, com o elenco que estava lá.
Foi, então, que surgiram dois jogadores que, para mim, mudaram a história dessa Copa América: Robinho e Júlio Batista. Robinho chamou a si a responsabilidade de fazer gols, diante da inutilidade do futebol de Wagner Love. Tornou-se artilheiro e incendiou o time. Provou que deviam todos buscar o melhor futebol, esforçar-se, pelo menos. E Júlio Batista, com força física, poder de marcar e avançar, deu novo alento ao burocrático meio de campo. Era a fórmula. Só precisava ser treinada. E foi o que aconteceu contra o Equador e, de novo contra o Chile, ainda mais morto que antes, já nas quartas-de-final. E a sonora goleada de seis a um serviu para dar confiança ao time.
Que viesse o Uruguai, na semi-final. Novamente assistimos a um time indeciso. Depois de um bom primeiro tempo, com dois a zero no placar, o empate do adversário no segundo tempo mostrou as mesmas falhas de antes. Mas a cobrança de pênaltis acabou classificando uma seleção que voltava a dar sustos no torcedor, uma seleção sem brilho, burocrática.
E pior: a imprensa enchia a bola da Argentina, com todos os seus craques, que vinha para a final com uma campanha irrepreensível, atropelando todos os seus adversários, tendo marcado dezesseis gols e sofrido apenas três. Estava sobrando em campo, com Riquelme, Messi, Crespo e companhia. O Brasil seria presa fácil para a técnica e a raça argentinas.
Uma final, portanto, com um ganhador antecipado?
Ah! os deuses do futebol! Ah! a vitória antes do tempo! Lembram da final da ultima Copa América? Quarenta e quatro minutos do segundo tempo: Argentina dois a um. Tévez, o moleque atrevido, faz gracinha lá no ataque brasileiro, rente à linha de fundo, leva um tranco, roubam-lhe a bola e o lançamento para o ataque brasileiro encontra Adriano: dois a dois. E depois a victória nos pênaltis, e a Argentina sai desmoralizada, arrasada, com os jogadores tirando do peito a medalha de prata, num gesto de raiva, de dor, de inveja.
O pior inimigo do bom futebol é a arrogância.
E são nossos hermanos muito, muito arrogantes. Basta que joguem um pouco melhor, que já se acham campeones del mundo, los mejores. E assim pensei eu: que venha a técnica, a raça, a organização tática da Argentina. E também a sua arrogância. Com uma pontinha de medo, só uma pontinha, ao lembrarem o gol do Adriano aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo daquela fantástica final.
E então, a batalha começou: los hermanos de cabeça erguida, procurando as jogadas ensaiadas, bem articuladas, um time no ataque, para arrasar esse bando de canarinhos mudos e com as penas chamuscadas por mais um desfalque: Elano no lugar do capitão Gilberto Silva. O script do jogo parecia desenhado: ataque contra defesa. Com direito a firulas de Riquelme e eficiência de Messi e Tévez. Pobre camisa amarela!
Pobre? E quem disse que o futebol brasileiro é pobre? Pode ser tudo, menos pobre. Todo jogador que veste a amarelinha carrega histórias suficientes de fracassos e vexames, para se abalar com bichos-papões. E sempre que caíram (e foram muitos os tombos!), foi depois de uma cambalhota e uma firula bem dada.
E lá estava Elano a roubar uma bola na risca do meio de campo e a lançar uma parábola perfeita para a corrida, a matada elegante, o drible seco e arremate precioso... de quem? Do esforçado, competente Júlio Batista. Um golaço para a história, não para a partida.
Mesmo que, por alguns minutos, los hermanos parecessem tontos com o gol a quatro minutos de jogo, ainda havia uma ponta de arrogância para o troco: uma bola na trave do atrapalhado Doni, dada pelo ainda maestro Riquelme.
E foi só.
Daí em diante, pouco ameaçou o gol brasileiro o até aqui estonteante ataque argentino. Mesmo com a contusão de Elano e a entrada de Daniel Alves, o Brasil tinha a partida nos pés, em bem articulados contra-ataques. E foi num desses que o coadjuvante virou titular de vez: uma bola bem cruzada por Daniel Alves traz uma nova revelação: o ótimo centroavante Ayala. Um belíssimo gol contra, capaz de fazer o goleiro argentino arrancar os cabelos.
Los hermanos, no entanto, ainda não pareciam derrotados. Saíram de campo juntos, como um batalhão bem unido, como o incrível exército de Branca Leone: perdem o jogo, mas não perdem a pose. Essa vai ser perdida só mais tarde, no pódio.
E o segundo tempo continua do mesmo jeito: dono do jogo, o Brasil ignora as substituições do freguês Alfio Basile, que tenta de tudo para impedir que sua seleção sucumba em mais uma partida contra os amarelinhos. Embora sem violência, a Seleção Brasileira abusa das faltas, o que irrita ainda mais os argentinos, enrolados em si mesmos, sem criatividade, sem forças para romper o bloqueio armado por Dunga. A zaga corta todos os chuveirinhos de Riquelme, a jogada que arrebentara várias defesas na competição, até agora.
E tome contra-ataque!
Pensei: uma goleada ia bem. Para humilhar de vez esses argentinos tão cheios de si. Mas bastou mais gol, um belo gol de Daniel Alves, num passe magistral do irreconhecível, pelo bom futebol, Wagner Love, num contra-ataque fulminante, armado por um Robinho apagado, por obra de uma contusão que, se não o tirou de campo, deixou-o pouco à vontade. Mas ele já fizera a lição: dar à Seleção o ânimo, o orgulho que faltava.
Sim, orgulho. Jogador de seleção tem de jogar com orgulho. Por vestir a camisa pentacampeã. Por carregar histórias de arrepiar, ao longo de quase cem anos de jogos, de brilho, de derrotas humilhantes e vitórias retumbantes. Não arrogância: orgulho.
Ao final, alma lava com os três a zero, só restava ao torcedor brasileiro ver com um riso de ironia a cara dos argentinos recebendo a medalha de prata e tirando-a ao descer do pódio, num gesto de quem não sabe perder, embora perca sempre que se arrogam os melhores diante do Brasil. Tinham perdido o jogo e a pose.
Mais um belo jogo para ficar na história. Até que outro confronto nos coloque, de novo, cara a cara, com nossos fregueses do sul. E que vença sempre o melhor, ou seja, a seleção canarinha.
Como só veremos de novo os platinos nas eliminatórias da Copa, só nos resta dizer: hasta la vista, hermanos! E que la plata lhes seja leve, sempre!
ISAIAS EDSON SIDNEY - 2:51 PM
Terça-feira, Maio 08, 2007
CAMPEONATO PAULISTA: UMA SURPRESA E UM GRANDE CAMPEÃO
8.5.2007
Não acho justa a fórmula de disputa do campeonato paulista de 2007. Afinal, o time de melhor campanha durante todo o torneio podia ficar sem título, em virtude de um jogo, um único jogo. E foi o que quase aconteceu com o Santos.
Aliás, antes de falar do Santos, abro um parênteses para o São Paulo. Foi o segundo melhor time do campeonato, o que tem o melhor elenco, melhor organização tática, um ótimo treinador, infra-estrutura de primeiro mundo. E, de repente, tudo isso desabou numa quase humilhante derrota para o São Caetano. Coisas do futebol.
E, já que falamos do São Caetano, vamos continuar falando dele. Sem dúvida, foi a grande surpresa. Depois de um período péssimo, decorrente do trauma da morte de seu zagueiro em campo; depois de ser desclassificado para a segunda divisão do campeonato brasileiro, o São Caetano renasce e chega às finais. Com dois jogos fantásticos. Tanto nos quatro a um contra o São Paulo e os dois a zero contra o Santos, o São Caetano foi um time praticamente sem erros. Que jogou nos erros dos adversários. Defendeu-se como time pequeno e atacou como time grande. Não deu a mínima oportunidade a nenhum dos dois adversários. Contra o Santos, então, deu uma aula de futebol moderno: marcação em cima toque de bola.
No entanto, acho que as duas vitórias incontestáveis tiveram o condão de relaxar os jogadores, de tranqüilizá-los demasiadamente. Não acredito que entraram no clima do já ganhou, mas imaginaram que o Santos tentaria a mesma tática do jogo anterior, principalmente porque o time santista tinha vindo de um empate, no meio da semana com um time fraco da Venezuela, o Caracas, pela Libertadores. Então, consideraram que o Santos não teria força para reagir. E foram surpreendidos.
O jogo final, Santos e São Caetano: uma aula de paciência, determinação, perícia na arte de jogar futebol. Há muito, não assistia a jogo tão bem articulado, por um treinador, com a competência dos jogadores em campo. Precisando marcar dois gols e não tomar nenhum, imaginava-se que o Santos partiria atabalhoadamente para o ataque, a fim de tirar essa diferença o mais rápido possível e, em não conseguindo, cairia no desespero, ao mesmo tempo que daria ao São Caetano a arma do contra-ataque. Não foi isso o que se viu, ao contrário: os jogadores do Santos encurralaram, sim, o São Caetano, mas na força do toque de bola, na calma com que marcaram o primeiro gol, no primeiro tempo, sem afobação.
Com um a zero no placar, o segundo tempo começou com um São Caetano indeciso entre tentar um gol e, assim, praticamente, liquidar com as pretensões santistas, ou só defender e arriscar-se a tomar um gol num momento em que não teria mais tempo de reagir. Essa indecisão lhe custou caro: o Santos continuou dominando o jogo e, no tempo devido, já quase no final, fez o seu segundo gol, num momento em que já não tinha força o nocauteado, mas bravo, time do ABC.
Santos campeão, um grande campeão, sem dúvida.
E méritos, muitos méritos, para o São Caetano, um time que superou suas dificuldades e voltou à elite do futebol paulista. Uma pena se o desmanche pós-campeonato desfigurá-lo a ponto de não conseguir voltar à primeira divisão do campeonato Brasileiro.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 1:49 PM
Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007
SOBRE JUÍZES E LIBERTADORES
Num bolo só: juizes e Libertadores. Juízes, sim, apesar do nome oficial. Que deviam ser árbitros, eu sei. Aquele que arbitra, que não é tendencioso. Mas, não: eles julgam o que vêem e condenam. No ato. Sem apelação. E erram. E como erram!
Assisti, ontem (31.1.2007, quarta-feira) ao jogo Santo e Bloom... qualquer coisa (lá de Santa Cruz de la Sierra). Qualquer coisa, sim. Que timinho horroroso! Que só não apanhou de mais (um a zero para o Santos), porque o time brasileiro ficou com medo. Medo de contusões. Porque desceram o cacete. Sob os olhos complacentes de um juizinho uruguaio mas do que conivente: assassino. As entradas por trás já há muito foram condenadas pela FIFA. Tem que expulsar! Mas, não: essa cambada ou é mal preparada ou mal intencionada. E, em se tratando de jogo pela Libertadores, em campo adversário, todos sabemos o que pensar...
Mas parece que não é só de erros disciplinares que vivem os homens de preto (que hoje vestem várias cores...): também de trapalhadas, como expulsar jogador (Marcelo Mattos, do Corinthians, porque jogou pra fora uma segunda bola) ou apitar o início de um jogo (Rio Claro x Grêmio Barueri) sem a que bola estivesse em campo... Não tinham (e continuam não tendo) mãe os homens de preto (que se vestem hoje com várias cores, mas a cabeça continua um buraco negro). E parece que não têm pátria, também. Erram em qualquer lugar, em qualquer língua... Até quando vamos tolerar esses caras mal preparados (estou falando só dos muito ruins, dos mal intencionados, dos que fazem bobagens seguidas e não são afastados) a apitar jogos e a influenciar resultados?
Mas, voltando à Libertadores. Que eu saiba, é um torneio de times de futebol. De vários países. Que se classificam para a disputa, segundo alguns critérios. Mas é um torneio de times. Não de nações, de países. Então, eu pergunto: por que voltar à lei burra (para dizer o mínimo) de que não podem chegar à final dois times de um mesmo país? Só porque os times brasileiros estiveram nas finais dos últimos torneios? E daí? Competência, caros hermanos, competência.
Além do mais: basta olhar o histórico de conquistas da Libertadores. O Brasil, dono de cinco títulos mundiais, o futebol mais respeitado do planeta, tem muito, mas muito menos títulos do que os times argentinos. E olhe que a Argentina só tem dois times bons e o resto é resto...
Volta, então, o velho preconceito de los hermanos contra nós, brasileiros, que sempre fomos os estranhos no ninho de língua espanhola. A troco de quê? Eu disse preconceito, mas acho que é mais: sob o preconceito se esconde o complexo de Caim, de nuestros hermanos. Não podem reconhecer no futebol brasileiro a superioridade que ele tem. No passado, roubavam descaradamente nossos times, quando iam jogar sob as mais apavorantes condições de temperatura e altitude. Times grandes como Santos, Cruzeiro, Inter, Flamengo, São Paulo etc., perdiam vergonhosamente para timinhos que, aqui, disputariam a terceira divisão de Minas, Rio ou São Paulo...
Como, agora, a televisão transmite tudo e é mais difícil roubar, os homens de preto deixam correr a pancadaria. E a CONCACAF reinventa regras absurdas. Essa Libertadores!
ISAIAS EDSON SIDNEY - 3:19 PM
Segunda-feira, Janeiro 15, 2007
RONALDO: O OCASO DO FENÔMENO?
Ronaldo tem apenas 30 anos. Eu pergunto: quantos seres humanos tiveram uma trajetória tão brilhante quanto ele, antes dos trinta? Pode procurar na história que a galeria se restringe a poucos, muito poucos. E se pensarmos apenas nos que tiveram origem humilde, esse número diminui drasticamente.
Não foi chamado de Fenômeno à toa.
Conquistou e encantou platéias no mundo inteiro com sua arte, o futebol. Assim como assombrou especialistas com sua capacidade de recuperação, depois de sucessivas contusões. Fez o tipo de sucesso que atrai gente de todas as espécies. Foi paparicado e perseguido (sim, perseguido) por aproveitadores e aproveitadoras de olho em sua fortuna ou na sua capacidade de tornar celebridades instantâneas rostos e corpos condenados ao anonimato. Deve ter ouvido conselhos os mais estapafúrdios e seguido palpites os mais absurdos. Encantou-se (e quem não se encantaria?) com a fama e fez bobagens, muitas bobagens.
E daí?
E daí que é, ainda, um moleque de trinta anos. E daí que pode, se bem orientado, praticar o futebol sublime que o consagrou ainda por muitos anos. E daí que, no fundo, só precisa mesmo é de um bom puxão de orelhas. Não do histerismo de um técnico que não consegue armar um time (o Real Madrid) com as estrelas que tem.
Na minha modesta opinião, acho que estão acendendo charuto com nota de cem dólares os dirigentes e o técnico do time espanhol. Mesmo que não fosse para voltar a aproveitar o talento de Ronaldo, é estupidez fazer estardalhaço com a condição atual de um jogador que já mostrou capacidade de recuperação jamais vista na história do futebol. Se está passando por um período de desorientação, de incapacidade de perder peso, não é acusando-o de dar mau exemplo, de ser a maçã podre de um grupo de celebridades que se vai chegar a algum lugar.
O grupo de jogadores do Real nunca teve um verdadeiro gerente de talentos, que soubesse administrar os egos de cada um, que se colocasse como orientador e conselheiro e não apenas técnico de futebol . É possível que a diversificada origem do grupo seja uma barreira difícil, mas não impossível de ser ultrapassada. Isso, no entanto, não justifica queimar assim o talento, a trajetória e a capacidade de um jogador como Ronaldo.
Enfim, o que eu quero mesmo dizer que é estupidez não tentar recuperar o Fenômeno, não só por tudo o que ele já fez pelo futebol, mas principalmente por ser ainda um quase moleque, um jovem adulto desorientado e perdido num mundo que cobra dele, às vezes, muito mais do que sua capacidade de nos surpreender.
Azar do Real, ao queimar sem dó um patrimônio como Ronaldo.
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ISAIAS EDSON SIDNEY - 5:12 PM
Domingo, Dezembro 17, 2006
A BATALHA DE YOKOHAMA
Um raio cai, sim, duas vezes no mesmo lugar. Ano passado, o São Paulo sofreu, mas derrotou o favorito Liverpool, pelo título de melhor do mundo em Yokohama. Hoje, foi a vez do Internacional de Porto Alegre conseguir mais uma façanha fantástica para o futebol brasileiro: vencer o favoritíssimo Barcelona, com seu futebol de fino trato.
Foi o jogo da força contra a técnica. Mas não foi nem violento (houve poucas faltas e apenas dois cartões amarelos), nem de ataque contra defesa, como se poderia supor. Não se acovardaram nem se assustaram os jogadores gaúchos diante de Ronaldinho, Deco e companhia. Encararam o desafio como time competente e competitivo. Se teve uma defesa sólida, que soube controlar as firulas, os passes de primeira e as triangulações quase sempre irresistíveis do Barça, também incomodou a defesa adversária em diversas ocasiões.
Não deixa de ser o Barcelona o grande time que é, nem passa o Internacional a ser o maior time do mundo. Mas que é valente e perigoso, sem nenhuma dúvida a partida de hoje o demonstrou sobejamente. Depois do fiasco da Copa do Mundo, resgatam os colorados a auto-estima do futebol brasileiro, que exige respeito, sim, porque pode fracassar às vezes, mas renasce das cinzas em capacidade de revelação de novos talentos e na capacidade de buscar vitórias que se julgam impossíveis.
Deixa o Inter uma lição importante para todos os treinadores: o conjunto. Não bastam, no futebol moderno (e em qualquer jogo coletivo), apenas brilhos de estrelas: é necessário o trabalho conjunto, a entrega, o jogar com e para o outro, de forma consciente e coletiva. Foi o que conseguiu Abel Braga, o grande responsável por esse título. Se eu disse que o Inter não é o maior time do mundo, também não é nenhum inocente ou franco atirador. Lançou, na hora certa, dois jovens de grande futuro: Alexandre Pato (que não brilhou tanto quanto no jogo anterior) e Luiz Adriano. Mas o nome do jogo foi, sem dúvida, Iarlei: o meia correu, lutou e conseguiu, em momentos cruciais do jogo, manter a bola no ataque, para desespero do Barça. Além de ter sido o responsável pelo passe para o gol de Adriano.
Pelo belo espetáculo oferecido, Inter e Barça estão de parabéns. Mais ainda o Colorado, pelo título inédito, que deve ter feito corações gaúchos se estufarem de orgulho, e por ter feito cair o raio duas vezes no mesmo lugar. E que caia muitas outras, ainda.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 1:11 PM
Quinta-feira, Dezembro 14, 2006
ESTADO DE BARÇA! OOPS: ESTADO DE GRAÇA!
Barcelona e América, do México. Semifinal do mundial de clubes no Japão. Não foi um jogo: foi uma aula de futebol. Há muito não via um time jogar assim, como o Barça. Com direito a show do Ronaldinho Gaúcho e uma grande partida do português Deco (que os nossos locutores insistem em dizer brasileiro naturalizado português. Se fosse perna-de-pau, duvido que ficassem falando isso).
O Barcelona é o time de futebol que joga, hoje, guardadas todas as devidas proporções, mais ou menos como a Seleção Brasileira de 1970. O esquema tático é diferente, os jogadores são diferentes, o preparo físico e a velocidade do jogo são diferentes. Mas, há algumas semelhanças em termos de vontade de jogar bola, de se divertir fazendo o que fazem, de criar jogadas unindo talento individual e senso de coletivo, de buscar soluções inusitadas, quando tudo parece complicado, enfim, de jogar com um objetivo: o gol adversário.
Lembra como era a Seleção de 70? Havia uma legião de canhotos (Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson...). Então, o time jogava meio que penso para a esquerda. E a defesa adversária sempre se armava esperando que as grandes jogadas saíssem pela esquerda. E saíam. Mas, a solução para o gol era encontrada pela direita, com Jairzinho e, mais raramente, com Carlos Alberto (quem não se lembra do último gol da Copa, quando Pelé lança no vazio, para o chute preciso do Carlos Alberto colocar o prego final no caixão da Itália). A facilidade com que viravam o jogo deixava zonzas as defesas adversárias. Se aquela Seleção, treinada para os poucos jogos da Copa do Mundo, fosse um time de futebol, chegaria à excelência do Barcelona de hoje. Eu disse excelência do Barcelona, porque uma seleção é muito diferente de um time de futebol que está junto durante muitos meses, até anos. Por isso, a comparação tem de ser feita com muito cuidado. A Seleção Brasileira de 70 contou com uma safra de jogadores que, além de craques (e um fora-de-série), eram muito inteligentes. Tinha aquela capacidade única de entender o jogo e suas táticas, para buscar (e achar) soluções que estão fora de qualquer treinamento, por mais longo e exaustivo que seja. Era uma seleção com padrão de jogo, de comportamento, de união e compreensão entre o que é individual e o que é coletivo. E jogava com prazer.
O Barcelona joga assim: com inteligência. Com toque de bola refinado. Com alegria. Arma a maioria das jogadas pela esquerda, com Ronaldinho, e busca as soluções de gol pela esquerda ou pelo meio. O grande armador é o Deco, o organizador. Mas a genialidade está na ponta esquerda, nos malabarismos estonteantes e nos passes precisos de Ronaldinho. Se me perguntarem qual a posição dele, eu não saberia responder. Parece ponta, mas não é. Parece atacante, mas não é. Parece armador, mas não é. E é tudo isso ao mesmo tempo. Com liberdade para deslocar-se por todo o campo, menos na defesa. Se se puser Ronaldinho para roubar bolas, marcar o atacante, vir de detrás, seu talento se reduz ao de um jogador comum. Que foi o que o Parreira fez dele na Copa do Mundo.
Além disso, o Barcelona é um time equilibrado, embora sua defesa não possa ser considerada seu melhor setor: do meio-campo para a frente, sabe unir o talento individual e a visão coletiva de jogo. Todos eles, inclusive Ronaldinho, sabem quando dar o drible ou fazer a jogada de efeito, mas nunca perdem o sentido do gol. O Barcelona, em seus melhores dias, como o de hoje no Japão, joga sempre para a frente, com objetividade, com firulas certeiras, para desnortear o adversário e jogá-lo na lona, sem humilhá-lo.
Se jogar assim no próximo domingo, contra o Internacional, a festa em Porto Alegre (porque não importa o resultado: haverá festa) será tricolor, e não colorada.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 3:26 PM
Sexta-feira, Outubro 13, 2006
DUNGA!
Diante do impasse, uma solução, no mínimo, criativa: Dunga.
O valente ex-volante, que teve sua carreira marcada pela dedicação em campo, pelo sentido de luta, pela liderança e por um futebol muito mais de força, vontade e disposição que pela técnica, volta a brilhar, agora como treinador da Seleção Brasileira de Futebol.
Sem nenhuma experiência anterior, para muitos é treinador tampão, guardando lugar para a volta de Luís Felipe Scolari, ou outro mais gabaritado.
Mas, parece que a história não será bem assim. Uma nova era Dunga pode estar começando. E para durar muito mais do que a simples lógica do futebol possa explicar.
Vejamos. Muitos explicam que o fracasso do Parreira, conhecedor profundo do futebol, mas técnico de um esquema só, ocorreu por sua teimosia em escalar jogadores fora de forma. Ou desmotivados. Isso pode ser verdade. Mas não toda a verdade, na minha opinião. A maior parte da causa do fracasso da Seleção Brasileira na Copa do Mundo na Alemanha deve ser debitada exclusivamente ao esquema do treinador.
Sempre afirmei que Parreira montava e impunha um esquema e os jogadores deviam adaptar-se a ele. Isso pode funcionar, parcialmente, num clube, onde haja tempo para exaustivos treinamentos, onde os jogadores à disposição tenham tempo para modificar antigos hábitos, adquirir novos fundamentos, assimilar jogadas ensaiadas. Sempre exemplifico com o time do Corinthians treinado por ele: depois de alguns meses, era um time compacto, que tocava a bola à exaustão e mantinha sua posse o maior tempo de jogo, difícil de ser batido, mas que jogava o futebol mais chato do mundo. Sonolento. Mesmo quando criava, era uma criatividade planejada, se isso é possível. Ninguém saía do script.
Ora, numa Seleção, onde o treinador pode escolher os jogadores, e escolher os melhores, Parreira sempre optou pelos craques, isto é, pelos jogadores considerados os melhores em sua posição. E depois fazia o quê? Impunha a eles o seu esquema de jogo. Ronaldinho, só para citar um único exemplo, deixou de jogar como no Barcelona, para cumprir funções burocráticas no meio de campo. Deixou de flutuar na frente da área, em todas as posições, como elemento criativo, como sempre o tenho visto fazer, para virar um simples assistente de seus companheiros de linha.
Uma perda considerável de energia.
Além de outros absurdos, como dois centroavantes ocupando um mesmo espaço, com o agravante de que um deles, Ronaldo, estar completamente fora de forma. Jogar dois jogadores de características iguais é possível. Pelé e Tostão provaram isso em setenta. Mas exige: treino, dedicação, vontade, técnica e, sobretudo, inteligência.
Eu acho que é burrice (e me perdoem a expressão) armar um esquema de jogo e não buscar os jogadores que se adaptem a ele, em vez de simplesmente selecionar os melhores. Nem sempre os melhores se adaptarão em pouco tempo e com pouco treino. E foi o que aconteceu. O que eu vi em campo: um time perdido taticamente.
Não concordo com a imprensa e a maioria dos comentaristas a sacrificar os jogadores por sua falta de esforço. Não houve falta de vontade, mas sim a vontade de cumprir rigidamente as ordens do treinador e a quase impossibilidade de fazê-lo, diante das dificuldades de adaptação do estilo dos principais craques àquela forma de jogar.
Eu sei que futebol não tem condicionais, é o que acontece e pronto. Mas, SE tivesse havido tempo de treinamento, SE todos os jogadores entrassem em forma, a sorte da Seleção teria sido outra. Podia, até, não ter vencido, mas faria uma campanha brilhante. Porque ali estava realmente reunido um bom elenco de craques. Mas isso, em vez de ter sido ótimo, teria sido o pior que podia acontecer. Porque os erros do senhor Parreira não teriam tido tanto destaque e ele continuaria a cometer suas barbaridades à frente da Seleção Brasileira.
Feliz fracasso, esse, da Seleção em campos da Alemanha.
Agora, o Dunga. Seu começo de trabalho mostrou uma coisa fundamental: exige dedicação em campo. Ponto para ele. Não escala jogador pelo nome, mas pela condição e por aquilo que ele mostra em campo. Outro ponto positivo. Parece caminhar para a idéia de que, se tem um esquema na cabeça, vai buscar os jogadores que o cumpram, sem se preocupar se tem nome ou se ganha mais ou se joga num clube de prestígio. Positivíssimo. Pode, ainda, convocar os jogadores e armar esquemas que respeitem suas características, sem tentar inventar de novo a roda. E isso é muito inteligente.
De qualquer forma, como treinador tampão ou como efetivo, e acho que está mais para a segunda hipótese, Dunga vai aos poucos se tornando uma espécie de Bernardinho do futebol. E é disso que a Seleção Brasileira precisa. Muito mais do que teorias brilhantes e palavras complicadas para explicar esquemas que os jogadores demoram a assimilar, é necessário, à beira do campo, um homem que saiba comandar, que saiba impor-se sem ser autoritário.
Principalmente porque era assim mesmo que ele agia, quando jogava. Tem a experiência de quem esteve lá, na zona do abacate, gritando, correndo, dando carrinhos e trombadas. Para vencer, sempre.
E chega dessa história de era Dunga. Era não, é!
ISAIAS EDSON SIDNEY - 11:51 AM
Segunda-feira, Julho 10, 2006
DONT CRY FOR US ARGENTINA
Rimos dos argentinos. Desclassificados nos pênaltis pela poderosa Alemanha. No dia seguinte, os argentinos riram de nós. Desclassificados no tempo normal pela surpreendente França de Zinedine Zidane. O que foi pior? Desclassificação é desclassificação. Não há pior ou melhor. Há apenas o vexame. Que, no nosso caso, foi maior. Pelo menos, para nós.
E a Seleção de Mr. Parreira arrumou as malas. Não para voltar. Para se desfazer. Cada um para sua casa. Na França, na própria Alemanha, na Itália, na Espanha... Poucos virão para o Brasil. A rigor, apenas três jogadores: Rogério Ceni, Ricardinho e Mineiro. E o que ficou, além do gosto amargo de cabo de guarda-chuva na boca da torcida brasileira? Torcida que preparou sua festa embalada pela mídia, que endeusou astros e potencializou o poder dos jogadores. E agora, José? E agora?
Bem, um favor nos prestou Zidane: livrar-nos do Parreira. Um grito de liberdade que precisa chegar até à CBF: Parreira, nunca mais! E daí? Qual o técnico ideal para a Seleção? Trazer de volta o Luiz Felipe? Luxemburgo? Leão? Bem, aí a coisa pega. Porque qualquer que seja o nome, a essa altura, é a solução de sempre. Felipão tem carisma. E, agora, mais experiência. Que já era imensa. Mas deixará os campos da Europa, para uma aventura complicada, que é renovar uma seleção brasileira? Todos sabem os dissabores por que passa qualquer um que se meta numa empreitada como essa. Leão, todos sabem, não tem mais as bênçãos dos manda-chuvas de nosso futebol. Está queimado. Luxemburgo? Tem competência, tem carisma e tem respeito. Mas... fico pensando... não está na hora de algo mais ousado? Ou mais realista?
Pensem comigo (já dei a pista aí em cima): quantos jogadores de nossa seleção jogam no Brasil? Pois é: vinte dos vinte e três são estrangeiros, ou seja, jogam em clubes europeus. E dos brasileiros que foram chamados, apenas Ricardinho jogou um pouco. Porque tinha e tem a confiança de Mr. Parreira. Os outros dois teriam mínima chance de jogar.
E mais: todos eles, os jogadores que jogam na Europa, são ídolos de suas equipes, porque se adaptaram e jogam do jeito europeu, falam as línguas dos países onde estão, assimilaram a cultura européia, apesar de alguns ainda reclamarem da falta de arroz com feijão. Mas isso é charme, é média com os nossos costumes, ou só um jeito de lembrar que ainda são brasileiros, apesar de tudo. Porque, na verdade, são europeus, ou, no mínimo, cidadãos do mundo. Longe de valores pátrios, não é que perderam esses valores, mas se engajaram em outra vida, em outro mundo. Aí, chega um cara que não os vê jogar no interior, contra os times pequenos, que é onde se molda o atleta, nas dificuldades do dia-a-dia, um cara que só vai à Europa para assistir aos clássicos, onde o nível de cobrança é outro, o jogo é outro, o esquema se sofistica, e esse cara acha que o jogador deve ir para seleção com tal ou qual função, fazendo isso ou aquilo, muito diferente do que ele faz no seu time. E monta um esquema de sua cabeça e obriga a cada um a segui-lo e mais: não treina o suficiente esse novo esquema.
Ora, dá no que deu: na hora da verdade, joga-se não o que se sabe mas o que o professor mandou, dentro do esquema, um esquema que não funciona, que não funciona porque não foi treinado, não foi treinado porque a idéia era poupar os jogadores... Enfim, a encrenca é que ninguém sabe o que fazer em campo. E tudo termina com a risada dos argentinos, com a gozação do mundo inteiro, com a crucificação do Roberto Carlos que arrumava a meia, do Cafu que não marcou ninguém, do Ronaldinho Gaúcho que não sabia o que estava fazendo em campo, do Kaká que correu, correu e morreu na praia...
A solução? Um técnico estrangeiro, europeu, que conhece todos os times da Europa, todos os jogadores que jogam na Europa, que pode assistir a todas as peladas contra os times do interior que é, conforme já disse, onde realmente se pode ver a força, a valentia, o jogo de cintura do jogador, onde ele se mostra mais. Enfim, acho q ue um técnico europeu daria conta de montar um time brasileiro com cara de Europa, com jeito de jogador da Europa, para ganhar um campeonato que, não importa onde se jogue, é predominantemente europeu. E chega de pruridos nacionalistas, que ninguém mais é bobo no futebol.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 4:18 PM