LIÇÕES DA COPA UEFA E DA LIBERTADORES
Belos espetáculos futebolísticos nos proporcionaram os europeus com a copa UEFA. Jogos disputados, viradas sensacionais do placar, grandes jogadas e, sobretudo, muita garra por parte dos jogadores envolvidos. E técnica, também.
Se não houve grandes avanços táticos, em termos de evolução do futebol, ficou, no entanto, muito claras as seguintes lições.
Primeiro, a valorização da posse de bola. Não a posse com exaustivos passes laterais, a que nos acostumamos ver em muitos times treinados pelo Parreira, por exemplo. Mas a posse de bola com virada de jogo, em sentido vertical, com deslocamentos constantes de todos os jogadores, até encontrar a brecha necessária na defesa adversária.
Segundo, o preparo físico e psicológico dos jogadores. O futebol, dos esportes coletivos, é o que mais exige de inteligência e concentração de seus praticantes. Não admite jogador burro: é necessário um tipo de inteligência específica para esse esporte, não necessariamente medida por teste de QI ou coisa que o valha. É um tipo de inteligência emocional e estratégica, de fazer a jogada pensando nas suas conseqüências. Sem dúvida, os noventa minutos de cada partida são, por isso, extremamente desgastantes para quem esteja concentrado o tempo todo. Nesse quesito, a Turquia e a Alemanha exemplificam bem o que eu quero dizer. Para os jogadores desses países, não havia jogo perdido, até que o juiz apitasse o final. Sem dúvida, uma grande lição.
Terceiro, o toque de bola exige volantes que saibam marcar bem, claro, mas principalmente que saibam sair jogando, que tenham qualidade de passe. Não basta destruir, tem que saber, também, construir a jogada, armar o contra-ataque, ou seja, roubar a bola e colocá-la nos pés do companheiro bem posicionado para dar prosseguimento à jogada. E, nesse quesito, por incrível que possa parecer, um brasileiro exemplificou bem esse tipo de comportamento. Embora não seja um craque, Marcos Sena, jogando pela Espanha, mostrou determinação na marcação e inteligência e qualidade no passe da bola. Aliás, não foi a Espanha a campeã por qualquer acaso. Foi a seleção que melhor exemplificou os três quesitos do futebol moderno, ou, pelo menos, atual, praticado durante a Copa UEFA.
Os árbitros. São, quase sempre, os vilões de um esporte que se moderniza. Erram muito, e prejudicam o jogo. Dessa vez, no entanto, encontraram uma boa (e cara) estratégia: pagaram muito bem a cada juiz (dez mil euros por partida, mais diária) e exigiram, por isso, uma preparação rigorosa. Mas valeu a pena: o número de erros importantes (aqueles que modificam resultados de uma partida) foi praticamente zero. Sempre há, claro, reclamações a respeito de uma ou outra jogada, de um ou outro pênalti mal marcado ou não marcado, mas, no frigir dos ovos, finalmente um torneio foi decidido pelos jogadores, não por erros de arbitragem.
Finalmente, a Libertadores. Podem-se dizer mil coisas a respeito da derrota do Fluminense para a LDU, nos pênaltis, em partida emocionante, no Maracanã lotado. Pode-se falar em maldição do importante estádio, em finais de times brasileiros. Pode-se falar até em maracanazo. Mas, há verdades que saltam aos olhos. Primeira, a defesa do Flu é muito ruim. Segunda, centroavante que se preze não perde gol como perdeu o Washington, quando já estava um a zero para o adversário. Terceira, só ganha a Libertadores o time que tiver técnica, concentração e, principalmente, garra. Como os europeus. E o Fluminense não teve o suficiente desses três quesitos. Já a LDU, sim. Jogou com inteligência, com concentração e com garra. Perdeu o jogo, mas ganhou o título.
Pênaltis. A decisão por pênaltis exige um outro cuidado do treinador: a escolha dos batedores e sua ordem. Está bem, você pode dizer que o craque do time deve ser o primeiro a bater o pênalti. Nem sempre. Veja o caso do Thiago Neves. Foi o nome do jogo: correu, lutou, fez três gols. Estava extenuado, física e psicologicamente. Não devia ter a responsabilidade de ser um dos primeiros a bater. Talvez nem devesse fazê-lo. Errou por puro cansaço. Acho que escolheria a zaga, para começar. Os zagueiros, embora também se desgastem, em geral correm menos e quase sempre enchem o pé, não procuram sutilezas de craque, na hora de tocar a bola, o que acaba muitas vezes nas mãos de goleiros espertos (e bons, claro).
Uma última observação sobre cobrança de pênaltis em decisões. Pode ser, apenas, desconfiança minha, mas cobradores canhotos, parece, erram bem mais do que os destros. E o Fluminense comprovou isso: os três primeiros cobradores eram canhotos e só um acertou. Gostaria de ver uma estatística a respeito, mas toda vez que vejo a bola na marca da cal e um cobrador canhoto, já me preparo para o erro. Talvez seja só implicância minha.
Enfim, da Copa da UEFA e da Libertadores, há muitas lições que nossos treinadores e nossos jogadores precisam aprender. Para não continuarem a dar vexames por aí, principalmente nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 2:30 PM