SELEÇÃO X CRÍTICA
Criticar é uma arte. Há de haver sensibilidade. Há de haver conhecimento. Há de haver, sobretudo, sobriedade. Desancar por desancar não é crítica. Ver apenas o lado ruim também não. Esbravejar, então, nem pensar. Crítico que berra, que xinga, que esperneia não é crítico. É torcedor. E há críticos que esbravejam até escrevendo!
Acho que isso vale para qualquer arte de criticar, seja ela voltada para a Literatura, o Cinema, as Artes Plásticas, o Teatro... Creio mais: a função do crítico é, por mais que ache essa palavra meio burocrática, didática. O crítico ilumina a obra para o público. E também para o autor. Para isso, não precisa ferir, não precisa cutucar suscetibilidades. Há que se respeitar o autor, sempre. Por pior que seja a sua obra. Talvez seja preferível omitir-se a ver como obrigação o fato de arrasar uma obra de autor principiante. Que se comprometa o didatismo. Ou, então, que se faça a crítica de tal forma que não se espezinhe, que não se tripudie. Não pode o crítico ter ranços de sadismo.
Futebol. Futebol é paixão, emoção, coração batendo a mil, irracionalidade. Parece bater de frente com a crítica, que pede racionalismo, contenção. Portanto, crítico de futebol, para mim, é ave rara. O que temos por aí é comentarista, que se arvora em crítico. Poucos, pouquíssimos são os verdadeiros críticos de futebol. E não me incluo entre eles. Porque também sofro, também torço, também me emociono.
Querem ver por que a emoção predomina, quando se trata de futebol? Alguém sabe a razão por que torcemos (e, às vezes, loucamente) por um time de futebol? Pode-se dar desculpas: influência disso ou daquilo, na infância. Mas, razão, mesmo, motivo certo, ninguém é capaz de produzir. Só sabemos esse é o nosso time. E, já no colocar do possessivo, revelamos o quanto é subjetiva a escolha. O futebol é, de todos os esportes, o que mais atinge a nossa subjetividade, por tudo o que ele representa de atavismo, de lutas ancestrais, de capacidade de organizar e, ao mesmo tempo, de improvisar.
Nessa última observação está a chave do que entendo por futebol: capacidade de organizar e, ao mesmo tempo, improvisar. Todos os times vitoriosos têm: a) organização tática; b) quebra dessa organização, em algum momento, por algum dos jogadores, quase sempre aquele que é chamado craque do time. Ou seja, sem esquema, sem padrão de jogo, sem conhecimento das possibilidades táticas de organização, mesmo contando com os melhores jogadores, é quase nula a possibilidade de um time, qualquer time, tornar-se vencedor.
Suponhamos que fosse possível reunir num só time: Pelé, Puskas, Maradona, Rivelino, Didi, Garrincha, Zico... Bastam esses sete, ok? Poderiam ser outros sete geniais, fica ao gosto da imaginação de cada um. Muito bem: escalei apenas sete, dos onze possíveis. Deixo os quatro restantes para jogadores bons, de defesa: o goleiro e três zagueiros. Alguém acha que esses sete gênios conseguiriam formar um time vencedor? A resposta é, ao mesmo tempo, sim e não.
Não: seriam globe-trotters, mágicos, sem dúvida, dariam espetáculo, marcariam muitos gols, fariam jogadas fantásticas, num primeiro momento. Mas, bastaria à equipe adversária estabelecer organização tática que fechasse os espaços para a genialidade desses craques, que o caminho da vitória estaria assegurado para esse time. Acho que foi mais ou menos isso o que ocorreu com a Seleção Brasileira de 82, não?
Sim: se conseguissem, através de um treinador também genial, uma organização tática tal que lhes permitisse controlar o jogo com marcação e disposição em campo, para também fechar os espaços, roubar a bola e, principalmente, saber o que fazer com ela em contra-ataques, ou seja, conhecimento do posicionamento uns dos outros. Para isso, no entanto, seria necessário um longo período de treinamentos, de tentativa e erro. Depois que tivessem mentalizado o esquema de jogo, aí, sim, quando necessário entraria a capacidade inventiva de cada um, os dribles, o improviso. E até poderíamos ter um time quase invencível.
Mas o que tem tudo isso a ver com a crítica? Pois, é: voltemos ao início. E juntemos às reflexões anteriores o fato de a Seleção Brasileira convocada pelo Dunga ter sido tão irregular e, no entanto, acabar campeã da Copa América.
A crítica brasileira tem esperneado, quando o treinador valoriza o resultado em detrimento do chamado futebol arte. E quando falam de futebol arte, querem referir-se ao tipo de jogo que consagrou o Brasil: improvisação, beleza, jogo bonito, show para a torcida.
Muito bem: das seleções campeãs do mundo, precisamente a única que jogou feio, que valorizou o esquema em detrimento da capacidade individual foi a de 94, nos Estados Unidos. E ganhou o título porque não encontrou nenhuma outra seleção melhor. Foi a Copa do Mundo mais medíocre da história de todas as copas. Nenhum time se sobressaiu. E, aí, em terra de cego...
Todas as demais seleções campeãs tinham: a) esquema definido e, b) padrão de jogo. Porque, havendo esses dois elementos, florescem as individualidades. Não o contrário.
Dois exemplos extremos: a Seleção de 70 e o Once Caldas, campeão da Libertadores de 2004.
À Seleção de 70 sobravam craques: Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson, Jairzinho, Piazza... Tostão deveria ser o reserva de luxo de Pelé, pois jogavam na mesma posição. Gérson, Rivelino e Piazza também disputariam entre si a mesma posição. E, no entanto, acabaram todos jogando: Tostão como um falso centroavante; Rivelino como um falso ponta-esquerda e Piazza... como zagueiro! Mas, teve essa Seleção mais de quarenta dias de treino e amistosos, para acertar o esquema tático, para que cada um encontrasse o seu lugar em campo e soubesse onde encontrar o companheiro. E o que se viu foi um quase perfeito equilíbrio entre tática e individualidades.
Once Caldas. Um quase desconhecido time venezuelano surpreendeu ao vencer todos os bichos papões da Libertadores, inclusive Santos, São Paulo e Boca Juniors. Se observarmos sua trajetória, veremos que em apenas um jogo marcou mais de dois gols, logo no começo, contra o inexpressivo Fénix, do Equador (três a zero). Além do placar apertado, muitas de suas decisões foram por pênaltis (perdeu a final mundial no Japão também nos pênaltis, para o Porto). Como jogava o Once Caldas? Para desespero de seus adversários, totalmente fechado na defesa, praticamente com uma linha de cinco e outra de quatro jogadores. Prevalecia a paciência, até os últimos minutos, quando o time de repente ia para a frente e conseguia um gol.
Dois times, duas filosofias de jogo. Se a Seleção fosse um time, com certeza, alcançaria outras glórias, outros campeonatos. Mas se o Once Caldas fosse uma seleção, provavelmente teria muitas dificuldades de conquistar uma copa do mundo. Porque lhe faltava o equilíbrio necessário para ser, definitivamente, um grande time: sobrava disciplina tática e faltavam talentos individuais, embora tivesse alguns bons jogadores. Obteve sucesso porque era novidade. Passou.
Voltemos à critica e à Seleção Brasileira. Ao convocar os jogadores, presume-se que um treinador faça uma das seguintes coisas: a) tenha um esquema tático já definido para a Seleção e convoque os melhores jogadores que possam executar, no momento, esse esquema tático; ou, b) convoque os melhores jogadores de cada posição, no momento, e procure um esquema tático que concilie as características individuais com esse esquema.
Qualquer que seja o critério, há que se treinar, para que os jogadores assimilem o esquema e saibam o que fazer com a bola, quando de sua posse. Ou seja, conheça a posição do companheiro, seus deslocamentos etc. A partir daí, prevalece, sempre, a individualidade ou o que eu chamo de falsa improvisação. O jogador talentoso dará um drible desconcertante, fará uma jogada mais elaborada, tentará um chute diferente. Mas isso é só uma falsa improvisação, porque os demais jogadores sabem o que ele pode inventar, e já ficam atentos. Lembram o Sócrates e seu calcanhar? Os companheiros sempre ficavam espertos, sabendo que tal jogada podia ocorrer a qualquer momento e colocavam-se adequadamente.
A criatividade, tão decantada e exigida pelos senhores críticos, só pode nascer de um esquema tático perfeitamente assimilado por todos os jogadores. Porque não adianta absolutamente nada um craque improvisar uma série de jogadas, se seus companheiros não estiverem atentos ou prevenidos para aproveitá-las. E um craque, com raríssimas exceções (que só ocorrem no desespero), só abre a sua caixa de surpresas, quando tem confiança de que sua jogada pode ser aproveitada pelo time ou, se não der certo, ser compensada pela atenção dos companheiros.
Portanto, não adianta absolutamente nada a chamada crítica especializada espernear contra a Seleção de Dunga, agora, porque ele tem tentado montar um novo time. Vai errar, vai acertar. Mas sua permanência no cargo depende de vitórias. Também não adianta absolutamente nada ele montar um time de artistas que não consegue vencer. Não sei se ele vai ficar ou não, mas é um início de trabalho interessante. Tem possibilidades. E o tal futebol arte só vai aparecer, quando ele puder treinar um time convocado segundo seus critérios, com os melhores os jogadores, não importando o nome ou a fama. E estabelecer um esquema e um padrão de jogo para esse time.
Antes disso, é mesmo o futebol de resultados que ele tem de buscar. Como o que obteve ao ganhar a Copa América. Que os comentaristas esportivos deixem o Dunga trabalhar, sem histerismo. Basta olhar para a Argentina: tinha um bom time, um bom padrão de jogo, esquema tático, jogadores que desequilibravam e tudo o mais, mas chegou na hora de a onça beber água, o que aconteceu? A onça virou gatinho, subiu no telhado e... Bem, o que eu quero dizer, mesmo, é que é preciso muita calma: o futebol brasileiro pode ter tido grandes fracassos, mas deve ser sempre respeitado. Inclusive e principalmente pela crítica.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 3:52 PM
Segunda-feira, Julho 16, 2007
ARGENTINA: MAIS UMA VEZ, VÍTIMA DOS AMARELINHOS
Para a Copa América, Dunga não pôde contar com nove jogadores, por vários motivos que nem valem a pena comentar aqui. Nove! Convocou, portanto, os que estavam à disposição. E tentou armar um esquema tático com os seus preferidos no meio de campo: Elano e Diego. Não deu certo. Ambos estavam fora de ritmo, fora de forma, sem o brilho que mostraram em outras ocasiões. Podem ter nova oportunidade? Claro: são grandes jogadores. Mas não estavam em bom momento, física e mentalmente.
Com várias mudanças aqui e ali, o time foi-se acertando durante a competição.
Nos três jogos da primeira fase (México, derrota de dois a zero; Chile, três a zero; Equador, um a zero), o que se viu foi um time que alternava bom futebol com uma total falta do que fazer com a bola. Mas, o esquema não era de todo ruim, apesar das críticas. Não era, claro, nem o time do Dunga nem do torcedor nem dos entendidos em futebol. Era, apenas, o time possível, com o elenco que estava lá.
Foi, então, que surgiram dois jogadores que, para mim, mudaram a história dessa Copa América: Robinho e Júlio Batista. Robinho chamou a si a responsabilidade de fazer gols, diante da inutilidade do futebol de Wagner Love. Tornou-se artilheiro e incendiou o time. Provou que deviam todos buscar o melhor futebol, esforçar-se, pelo menos. E Júlio Batista, com força física, poder de marcar e avançar, deu novo alento ao burocrático meio de campo. Era a fórmula. Só precisava ser treinada. E foi o que aconteceu contra o Equador e, de novo contra o Chile, ainda mais morto que antes, já nas quartas-de-final. E a sonora goleada de seis a um serviu para dar confiança ao time.
Que viesse o Uruguai, na semi-final. Novamente assistimos a um time indeciso. Depois de um bom primeiro tempo, com dois a zero no placar, o empate do adversário no segundo tempo mostrou as mesmas falhas de antes. Mas a cobrança de pênaltis acabou classificando uma seleção que voltava a dar sustos no torcedor, uma seleção sem brilho, burocrática.
E pior: a imprensa enchia a bola da Argentina, com todos os seus craques, que vinha para a final com uma campanha irrepreensível, atropelando todos os seus adversários, tendo marcado dezesseis gols e sofrido apenas três. Estava sobrando em campo, com Riquelme, Messi, Crespo e companhia. O Brasil seria presa fácil para a técnica e a raça argentinas.
Uma final, portanto, com um ganhador antecipado?
Ah! os deuses do futebol! Ah! a vitória antes do tempo! Lembram da final da ultima Copa América? Quarenta e quatro minutos do segundo tempo: Argentina dois a um. Tévez, o moleque atrevido, faz gracinha lá no ataque brasileiro, rente à linha de fundo, leva um tranco, roubam-lhe a bola e o lançamento para o ataque brasileiro encontra Adriano: dois a dois. E depois a victória nos pênaltis, e a Argentina sai desmoralizada, arrasada, com os jogadores tirando do peito a medalha de prata, num gesto de raiva, de dor, de inveja.
O pior inimigo do bom futebol é a arrogância.
E são nossos hermanos muito, muito arrogantes. Basta que joguem um pouco melhor, que já se acham campeones del mundo, los mejores. E assim pensei eu: que venha a técnica, a raça, a organização tática da Argentina. E também a sua arrogância. Com uma pontinha de medo, só uma pontinha, ao lembrarem o gol do Adriano aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo daquela fantástica final.
E então, a batalha começou: los hermanos de cabeça erguida, procurando as jogadas ensaiadas, bem articuladas, um time no ataque, para arrasar esse bando de canarinhos mudos e com as penas chamuscadas por mais um desfalque: Elano no lugar do capitão Gilberto Silva. O script do jogo parecia desenhado: ataque contra defesa. Com direito a firulas de Riquelme e eficiência de Messi e Tévez. Pobre camisa amarela!
Pobre? E quem disse que o futebol brasileiro é pobre? Pode ser tudo, menos pobre. Todo jogador que veste a amarelinha carrega histórias suficientes de fracassos e vexames, para se abalar com bichos-papões. E sempre que caíram (e foram muitos os tombos!), foi depois de uma cambalhota e uma firula bem dada.
E lá estava Elano a roubar uma bola na risca do meio de campo e a lançar uma parábola perfeita para a corrida, a matada elegante, o drible seco e arremate precioso... de quem? Do esforçado, competente Júlio Batista. Um golaço para a história, não para a partida.
Mesmo que, por alguns minutos, los hermanos parecessem tontos com o gol a quatro minutos de jogo, ainda havia uma ponta de arrogância para o troco: uma bola na trave do atrapalhado Doni, dada pelo ainda maestro Riquelme.
E foi só.
Daí em diante, pouco ameaçou o gol brasileiro o até aqui estonteante ataque argentino. Mesmo com a contusão de Elano e a entrada de Daniel Alves, o Brasil tinha a partida nos pés, em bem articulados contra-ataques. E foi num desses que o coadjuvante virou titular de vez: uma bola bem cruzada por Daniel Alves traz uma nova revelação: o ótimo centroavante Ayala. Um belíssimo gol contra, capaz de fazer o goleiro argentino arrancar os cabelos.
Los hermanos, no entanto, ainda não pareciam derrotados. Saíram de campo juntos, como um batalhão bem unido, como o incrível exército de Branca Leone: perdem o jogo, mas não perdem a pose. Essa vai ser perdida só mais tarde, no pódio.
E o segundo tempo continua do mesmo jeito: dono do jogo, o Brasil ignora as substituições do freguês Alfio Basile, que tenta de tudo para impedir que sua seleção sucumba em mais uma partida contra os amarelinhos. Embora sem violência, a Seleção Brasileira abusa das faltas, o que irrita ainda mais os argentinos, enrolados em si mesmos, sem criatividade, sem forças para romper o bloqueio armado por Dunga. A zaga corta todos os chuveirinhos de Riquelme, a jogada que arrebentara várias defesas na competição, até agora.
E tome contra-ataque!
Pensei: uma goleada ia bem. Para humilhar de vez esses argentinos tão cheios de si. Mas bastou mais gol, um belo gol de Daniel Alves, num passe magistral do irreconhecível, pelo bom futebol, Wagner Love, num contra-ataque fulminante, armado por um Robinho apagado, por obra de uma contusão que, se não o tirou de campo, deixou-o pouco à vontade. Mas ele já fizera a lição: dar à Seleção o ânimo, o orgulho que faltava.
Sim, orgulho. Jogador de seleção tem de jogar com orgulho. Por vestir a camisa pentacampeã. Por carregar histórias de arrepiar, ao longo de quase cem anos de jogos, de brilho, de derrotas humilhantes e vitórias retumbantes. Não arrogância: orgulho.
Ao final, alma lava com os três a zero, só restava ao torcedor brasileiro ver com um riso de ironia a cara dos argentinos recebendo a medalha de prata e tirando-a ao descer do pódio, num gesto de quem não sabe perder, embora perca sempre que se arrogam os melhores diante do Brasil. Tinham perdido o jogo e a pose.
Mais um belo jogo para ficar na história. Até que outro confronto nos coloque, de novo, cara a cara, com nossos fregueses do sul. E que vença sempre o melhor, ou seja, a seleção canarinha.
Como só veremos de novo os platinos nas eliminatórias da Copa, só nos resta dizer: hasta la vista, hermanos! E que la plata lhes seja leve, sempre!
ISAIAS EDSON SIDNEY - 2:51 PM