A BATALHA DE YOKOHAMA
Um raio cai, sim, duas vezes no mesmo lugar. Ano passado, o São Paulo sofreu, mas derrotou o favorito Liverpool, pelo título de melhor do mundo em Yokohama. Hoje, foi a vez do Internacional de Porto Alegre conseguir mais uma façanha fantástica para o futebol brasileiro: vencer o favoritíssimo Barcelona, com seu futebol de fino trato.
Foi o jogo da força contra a técnica. Mas não foi nem violento (houve poucas faltas e apenas dois cartões amarelos), nem de ataque contra defesa, como se poderia supor. Não se acovardaram nem se assustaram os jogadores gaúchos diante de Ronaldinho, Deco e companhia. Encararam o desafio como time competente e competitivo. Se teve uma defesa sólida, que soube controlar as firulas, os passes de primeira e as triangulações quase sempre irresistíveis do Barça, também incomodou a defesa adversária em diversas ocasiões.
Não deixa de ser o Barcelona o grande time que é, nem passa o Internacional a ser o maior time do mundo. Mas que é valente e perigoso, sem nenhuma dúvida a partida de hoje o demonstrou sobejamente. Depois do fiasco da Copa do Mundo, resgatam os colorados a auto-estima do futebol brasileiro, que exige respeito, sim, porque pode fracassar às vezes, mas renasce das cinzas em capacidade de revelação de novos talentos e na capacidade de buscar vitórias que se julgam impossíveis.
Deixa o Inter uma lição importante para todos os treinadores: o conjunto. Não bastam, no futebol moderno (e em qualquer jogo coletivo), apenas brilhos de estrelas: é necessário o trabalho conjunto, a entrega, o jogar com e para o outro, de forma consciente e coletiva. Foi o que conseguiu Abel Braga, o grande responsável por esse título. Se eu disse que o Inter não é o maior time do mundo, também não é nenhum inocente ou franco atirador. Lançou, na hora certa, dois jovens de grande futuro: Alexandre Pato (que não brilhou tanto quanto no jogo anterior) e Luiz Adriano. Mas o nome do jogo foi, sem dúvida, Iarlei: o meia correu, lutou e conseguiu, em momentos cruciais do jogo, manter a bola no ataque, para desespero do Barça. Além de ter sido o responsável pelo passe para o gol de Adriano.
Pelo belo espetáculo oferecido, Inter e Barça estão de parabéns. Mais ainda o Colorado, pelo título inédito, que deve ter feito corações gaúchos se estufarem de orgulho, e por ter feito cair o raio duas vezes no mesmo lugar. E que caia muitas outras, ainda.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 1:11 PM
Quinta-feira, Dezembro 14, 2006
ESTADO DE BARÇA! OOPS: ESTADO DE GRAÇA!
Barcelona e América, do México. Semifinal do mundial de clubes no Japão. Não foi um jogo: foi uma aula de futebol. Há muito não via um time jogar assim, como o Barça. Com direito a show do Ronaldinho Gaúcho e uma grande partida do português Deco (que os nossos locutores insistem em dizer brasileiro naturalizado português. Se fosse perna-de-pau, duvido que ficassem falando isso).
O Barcelona é o time de futebol que joga, hoje, guardadas todas as devidas proporções, mais ou menos como a Seleção Brasileira de 1970. O esquema tático é diferente, os jogadores são diferentes, o preparo físico e a velocidade do jogo são diferentes. Mas, há algumas semelhanças em termos de vontade de jogar bola, de se divertir fazendo o que fazem, de criar jogadas unindo talento individual e senso de coletivo, de buscar soluções inusitadas, quando tudo parece complicado, enfim, de jogar com um objetivo: o gol adversário.
Lembra como era a Seleção de 70? Havia uma legião de canhotos (Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson...). Então, o time jogava meio que penso para a esquerda. E a defesa adversária sempre se armava esperando que as grandes jogadas saíssem pela esquerda. E saíam. Mas, a solução para o gol era encontrada pela direita, com Jairzinho e, mais raramente, com Carlos Alberto (quem não se lembra do último gol da Copa, quando Pelé lança no vazio, para o chute preciso do Carlos Alberto colocar o prego final no caixão da Itália). A facilidade com que viravam o jogo deixava zonzas as defesas adversárias. Se aquela Seleção, treinada para os poucos jogos da Copa do Mundo, fosse um time de futebol, chegaria à excelência do Barcelona de hoje. Eu disse excelência do Barcelona, porque uma seleção é muito diferente de um time de futebol que está junto durante muitos meses, até anos. Por isso, a comparação tem de ser feita com muito cuidado. A Seleção Brasileira de 70 contou com uma safra de jogadores que, além de craques (e um fora-de-série), eram muito inteligentes. Tinha aquela capacidade única de entender o jogo e suas táticas, para buscar (e achar) soluções que estão fora de qualquer treinamento, por mais longo e exaustivo que seja. Era uma seleção com padrão de jogo, de comportamento, de união e compreensão entre o que é individual e o que é coletivo. E jogava com prazer.
O Barcelona joga assim: com inteligência. Com toque de bola refinado. Com alegria. Arma a maioria das jogadas pela esquerda, com Ronaldinho, e busca as soluções de gol pela esquerda ou pelo meio. O grande armador é o Deco, o organizador. Mas a genialidade está na ponta esquerda, nos malabarismos estonteantes e nos passes precisos de Ronaldinho. Se me perguntarem qual a posição dele, eu não saberia responder. Parece ponta, mas não é. Parece atacante, mas não é. Parece armador, mas não é. E é tudo isso ao mesmo tempo. Com liberdade para deslocar-se por todo o campo, menos na defesa. Se se puser Ronaldinho para roubar bolas, marcar o atacante, vir de detrás, seu talento se reduz ao de um jogador comum. Que foi o que o Parreira fez dele na Copa do Mundo.
Além disso, o Barcelona é um time equilibrado, embora sua defesa não possa ser considerada seu melhor setor: do meio-campo para a frente, sabe unir o talento individual e a visão coletiva de jogo. Todos eles, inclusive Ronaldinho, sabem quando dar o drible ou fazer a jogada de efeito, mas nunca perdem o sentido do gol. O Barcelona, em seus melhores dias, como o de hoje no Japão, joga sempre para a frente, com objetividade, com firulas certeiras, para desnortear o adversário e jogá-lo na lona, sem humilhá-lo.
Se jogar assim no próximo domingo, contra o Internacional, a festa em Porto Alegre (porque não importa o resultado: haverá festa) será tricolor, e não colorada.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 3:26 PM