FUTEBOL É VIDA

 
             

   
 
 

Segunda-feira, Julho 10, 2006

 
DONT CRY FOR US ARGENTINA


Rimos dos argentinos. Desclassificados nos pênaltis pela poderosa Alemanha. No dia seguinte, os argentinos riram de nós. Desclassificados no tempo normal pela surpreendente França de Zinedine Zidane. O que foi pior? Desclassificação é desclassificação. Não há pior ou melhor. Há apenas o vexame. Que, no nosso caso, foi maior. Pelo menos, para nós.

E a Seleção de Mr. Parreira arrumou as malas. Não para voltar. Para se desfazer. Cada um para sua casa. Na França, na própria Alemanha, na Itália, na Espanha... Poucos virão para o Brasil. A rigor, apenas três jogadores: Rogério Ceni, Ricardinho e Mineiro. E o que ficou, além do gosto amargo de cabo de guarda-chuva na boca da torcida brasileira? Torcida que preparou sua festa embalada pela mídia, que endeusou astros e potencializou o poder dos jogadores. E agora, José? E agora?

Bem, um favor nos prestou Zidane: livrar-nos do Parreira. Um grito de liberdade que precisa chegar até à CBF: Parreira, nunca mais! E daí? Qual o técnico ideal para a Seleção? Trazer de volta o Luiz Felipe? Luxemburgo? Leão? Bem, aí a coisa pega. Porque qualquer que seja o nome, a essa altura, é a solução de sempre. Felipão tem carisma. E, agora, mais experiência. Que já era imensa. Mas deixará os campos da Europa, para uma aventura complicada, que é renovar uma seleção brasileira? Todos sabem os dissabores por que passa qualquer um que se meta numa empreitada como essa. Leão, todos sabem, não tem mais as bênçãos dos manda-chuvas de nosso futebol. Está queimado. Luxemburgo? Tem competência, tem carisma e tem respeito. Mas... fico pensando... não está na hora de algo mais ousado? Ou mais realista?

Pensem comigo (já dei a pista aí em cima): quantos jogadores de nossa seleção jogam no Brasil? Pois é: vinte dos vinte e três são estrangeiros, ou seja, jogam em clubes europeus. E dos brasileiros que foram chamados, apenas Ricardinho jogou um pouco. Porque tinha e tem a confiança de Mr. Parreira. Os outros dois teriam mínima chance de jogar.

E mais: todos eles, os jogadores que jogam na Europa, são ídolos de suas equipes, porque se adaptaram e jogam do jeito europeu, falam as línguas dos países onde estão, assimilaram a cultura européia, apesar de alguns ainda reclamarem da falta de arroz com feijão. Mas isso é charme, é média com os nossos costumes, ou só um jeito de lembrar que ainda são brasileiros, apesar de tudo. Porque, na verdade, são europeus, ou, no mínimo, cidadãos do mundo. Longe de valores pátrios, não é que perderam esses valores, mas se engajaram em outra vida, em outro mundo. Aí, chega um cara que não os vê jogar no interior, contra os times pequenos, que é onde se molda o atleta, nas dificuldades do dia-a-dia, um cara que só vai à Europa para assistir aos clássicos, onde o nível de cobrança é outro, o jogo é outro, o esquema se sofistica, e esse cara acha que o jogador deve ir para seleção com tal ou qual função, fazendo isso ou aquilo, muito diferente do que ele faz no seu time. E monta um esquema de sua cabeça e obriga a cada um a segui-lo e mais: não treina o suficiente esse novo esquema.


Ora, dá no que deu: na hora da verdade, joga-se não o que se sabe mas o que o professor mandou, dentro do esquema, um esquema que não funciona, que não funciona porque não foi treinado, não foi treinado porque a idéia era poupar os jogadores... Enfim, a encrenca é que ninguém sabe o que fazer em campo. E tudo termina com a risada dos argentinos, com a gozação do mundo inteiro, com a crucificação do Roberto Carlos que arrumava a meia, do Cafu que não marcou ninguém, do Ronaldinho Gaúcho que não sabia o que estava fazendo em campo, do Kaká que correu, correu e morreu na praia...

A solução? Um técnico estrangeiro, europeu, que conhece todos os times da Europa, todos os jogadores que jogam na Europa, que pode assistir a todas as peladas contra os times do interior que é, conforme já disse, onde realmente se pode ver a força, a valentia, o jogo de cintura do jogador, onde ele se mostra mais. Enfim, acho q ue um técnico europeu daria conta de montar um time brasileiro com cara de Europa, com jeito de jogador da Europa, para ganhar um campeonato que, não importa onde se jogue, é predominantemente europeu. E chega de pruridos nacionalistas, que ninguém mais é bobo no futebol.

ISAIAS EDSON SIDNEY - 4:18 PM


Terça-feira, Julho 04, 2006

 
LAMBENDO AS FERIDAS




Depois de ouvir e ler tudo o que se disse sobre a eliminação da Seleção Brasileira da Copa da Alemanha, é preciso pôr o bestunto para funcionar e, deixando de lado a paixão, tentar racionalizar um pouco. Está certo: futebol é movido a sentimentos loucos de amor e ódio. Torcedor fanático é redundância, porque todo torcedor é, em essência, um fanático. Será?

Repetem-se à exaustão expressões como ¿a pátria de chuteiras¿ para exaltar as vitórias ou ¿complexo de vira-latas¿ para lamentar as derrotas. Bobagens. Tudo bobagens de mentes férteis a serviço de uma paixão. Futebol é só um jogo. Um dos mais belos e inventivos, jamais criados pelo homem. Mas nada mais que um jogo. Dele não dependem, felizmente, os destinos de uma nação. Nele não cabem as agruras ou farturas de um povo. São apenas alguns homens ou mulheres e uma bola. Entre eles há, sim, o balé de erros e acertos de jogadas que se decidem em frações de segundo, para decidir o vencedor ou o perdedor. E não passa disso.

Mas, até mesmo esse balé, por muitos visto como mágico ou imponderável, depende de fatores bastante lógicos, como preparo físico e psicológico, habilidade individual e coletiva, capacidade de ação e reação a estímulos internos e externos, coordenação e comando, comprometimento e doação, visão de jogo e compreensão do outro, do adversário.

Explicações para a derrota brasileira? Muitas. E todas podem ser falsas ou verdadeiras, não importa. Talvez fiquemos olhando apenas o nosso lado e não vejamos o outro, o adversário. Que, ao fim e ao cabo, jogou melhor. Soube aproveitar o momento do jogo e marcar. E a Seleção Brasileira, com os melhores jogadores, não teve padrão de jogo, não teve fôlego, não teve pernas para reagir. Há culpados? Sim, claro. Mas e daí? Culpados por perder um jogo: bobagem! Entra-se em campo para ganhar ou perder. E uma derrota não apaga o passado. Não apaga as conquistas de tantas copas, de tantos jogos fantásticos, de recordes e encantamentos. Não deixamos, com a derrota para a França, de sermos pentacampeões, de termos tido (e anda temos) jogadores marcantes na história do futebol. E mais: não foi a derrota do País, mas sim de um time, de um grupo de pessoas. Não deixa marcas, não deixa feridos, não deixa mortos. Apenas um gostinho de ressaca, ao fim de uma festa para a qual nos preparamos mal. Ou os adversários se prepararam melhor.

Enfim, tenho muitas explicações para a derrota. Mas, por ora, há apenas o desejo de exorcizar fantasmas, de olhar o jogo como jogo e encarar a derrota como natural. Derrota que não modifica a nossa cultura nem nosso olhar sobre o mundo. E não pode deixar que nós, como povo, voltemos a sentir qualquer complexo nem de superioridade nem de inferioridade. Também não perdemos, com a derrota, a nossa identidade. Não somos os vira-latas do mundo porque nossa seleção perdeu. Nem os vencedores serão o melhor povo do mundo porque terão ganhado uma Copa. O mundo é, sim, uma bola, mas não depende daquela bola branca e perfeita, rolada em campos verdes de estádios de sonho de um povo que sabe organizar uma festa, para continuar girando em torno do Sol. A Copa de Mundo de Futebol é uma celebração da vida. E é isso, só isso, o que realmente importa. O resto é História ou estória.

ISAIAS EDSON SIDNEY - 12:40 PM

 

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