COPA DO MUNDO: PAUSA PARA MEDITAÇÃO
Depois de um porre de jogos (e de agüentar a chatice de nossos narradores e comentaristas), a Copa dá uma pausa. Para pensar um pouco em como as coisas estão indo para a Seleção Brasileira. Sobre a Copa propriamente dita, deixo para mais tarde, depois que acabar.
Engraçado: quando a imprensa brasileira fez intenso lobby pelo Parreira, poucas vozes se levantaram para lembrar o quanto é chato esse treinador. O quanto é conservador. Esqueceram-se todos da Copa de 94, nos Estados Unidos, quando o Brasil foi campeão com um jogo feio, defensivo, sem criatividade, graças ao famoso pênalti perdido de Baggio. Lembram?
Pois é, Parreira é isto: burocrata. Inventor de esquemas rígidos. Que valorizem a posse de bola e o toque para lá e para cá, como sendo o objetivo máximo do futebol. Em que o gol realmente se transforma num simples detalhe. As televisões têm reprisado à exaustão o último gol do Brasil contra Gana, em que a seleção deu mais de vinte toques na bola, por mais de um minuto, até a conclusão do Zé Roberto. A bola rodou todo o campo, passando por quase todos os jogadores, inclusive o goleiro Dida. Isso mais do que exemplifica o jogo que Parreira gosta que seus times joguem: toque burocrático. Infelizmente, isso também é futebol. Porque às vezes dá certo. E como já disse algures, por ter prestígio e ser bom de conversa, bem articulado em mais de uma língua, respeitado pelos jogadores, o time entra em campo para cumprir à risca as ordens do técnico. Mesmo à custa do sacrifício das características individuais. Da criatividade. Do chamado jogo bonito.
Veja-se o caso do Ronaldinho Gaúcho, o melhor do mundo: de ponta de lança foi transformado em armador. E ficou tímido. Não faz o que dele se espera, porque não pode criar, inventar, dar um drible a mais nos zagueiros antes de concluir para o gol. Porque tem de jogar recuado, lançando, marcando.
E o famoso quadrado? Era mágico e agora é só quadrado. Como o jogo de toda a seleção. Por quê? Para tentar calar a boca dos que o acusavam de defensivista, inventou um ataque com dois centroavantes (Ronaldo e Adriano) de características iguais. E um ocupa o espaço do outro. A solução seria, pelo menos, duas: Kaká, Gaúcho, Robinho e Ronaldo (Adriano) ou Kaká, Juninho Pernambucano, Gaúcho e Ronaldo (Adriano). O time ganharia leveza e velocidade de toque e aumentaria seu poder ofensivo. Mas o Parreira, além de tudo, é teimoso. Como, aliás, todo treinador de seleção.
Quanto ao Fenômeno, muita bobagem se falou e escreveu. Mesmo sem estar na melhor forma, Ronaldo é o ponto de referência para essa seleção. Se ele está bem, o time vai bem. Se ele está mal, o time joga mal. Desde a Copa da França, que ele perdeu para o Brasil, na final, por conta de um até hoje inexplicado desmaio antes do jogo. Depois, ganhou o título de 2002, porque estava bem e tinha superado todos os problemas. Infelizmente, esta é a realidade: Ronaldo é o termômetro da Seleção. Acho que nem Pelé, em seus áureos tempos, teve tanta importância para um time como tem Ronaldo, hoje, para esse grupo de jogadores. É torcer por ele: se estiver bem, o hexacampeonato tem muita chance de vir.
A grande virtude desta seleção, por incrível que pareça, tem sido a defesa. Queimei minha língua em relação ao Lúcio, por exemplo. Tem jogado com seriedade e não fez nenhuma bobagem até agora. Manteve alto nível, assim como Dida, Juan e Émerson. Também Gilberto Silva, quando entra, tem brilhado no trabalho de proteger nossa defesa. Ao lado de um talento que se revela ao mundo: Zé Roberto, talvez o melhor do time, até agora.
Antes de encerrar, um comentário sobre o jogo contra Gana. A torcida e os críticos brasileiros estão reclamando de quê? Do placar? Ora, ora, três a zero e ainda reclamam? A Seleção não correu risco em nenhum momento do jogo: Gana teve apenas um único lance claro de gol, que Dida tirou com o pé. Mais nada. Todos os demais ataques acabaram nas mãos do goleiro ou para fora. Situações normais de jogo. Que Gana não soube aproveitar. Porque o futebol deles é aquilo e mais nada. Um sonho de hábeis negros africanos, mas só isto: hábeis. E desastrados, tanto nas faltas quanto nas conclusões. Se tiveram, os habilidosos africanos, por mais tempo a bola nos pés, é porque houve, sim, uma certa displicência (não desprezo) em relação ao jogo e aos ganenses. Deixaram que eles se divertissem um pouco. Não se deve esquecer que, no final, a Seleção Brasileira podia ter feito, pelo menos, mais quatro gols. Que time com placar adverso não perderia. E eles? Vão reclamar de quê? Do juiz? Que marcou impedimento que não houve em jogada clara de perigo de gol, do Ronaldo, e depois não marcou o impedimento de Adriano? Ora, no frigir dos ovos, se quiserem reclamar, que o façam da defesa em linha, a famosa linha burra, que o seu técnico insistiu para que fizessem e que decretou três bolas na rede deles.
No mais, é isto: jogo burocrático, feio, mas que obtém resultados. A torcida brasileira e os críticos que se acostumem. Aliás, todos festejaram Parreira. Agora, agüentem. Se chegar à final, a Seleção Brasileira de Mr. Parreira vai jogar do mesmo jeito, chova ou faça sol, seja com Gana ou com a Alemanha ou Argentina, porque o esquema não muda, o jeito de jogar não muda, os jogadores é que se adaptem. Mesmo que tenham de sacrificar seu talento. Se for campeão, Parreira será endeusado. Se perder, será massacrado. Mas isso faz parte do jogo. Faz parte da condição de técnico. Jogo bonito? Espetáculo? Que fiquem para os perdedores.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 1:26 PM