REFLEXÕES ANTES DA COPA, BEM ANTES...
Cronista gasta tinta, craque gasta chuteira. No campo, pisando mesmo no gramado, vinte e três seres humanos: jogadores e juiz. Correndo ao lado, os assistentes, bandeirando impedimentos. Entre eles, louca e rebelde, a bola. Penso: por que se joga futebol? Para o óbvio: ganhar dinheiro, fama, prestígio. Pouco, muito pouco. Acho que é mais veneno, acho que é o visco do cacau, segundo Jorge Amado: quem pisa nunca mais sai. Se fosse só dinheiro, fama, prestígio, seriam todos loucos. Mas, não: são todos inteligentes. Muito inteligentes.
Porque, para jogar futebol, o cara pode ser analfabeto, disléxico, torto, não saber direito o que se passa no mundo, ser mau e mal criado, respondão, bobo, até meio idiota, mas burro, nunca! Que futebol é jogo para a inteligência. Jogador burro não faz carreira.
Ver um jogo de futebol por inteiro, do campo, pode ser uma experiência comum. Todo torcedor a tem. Mas, se pensarmos no quanto exige de nossa atenção, de nossa capacidade, apenas por estar na arquibancada, vendo a movimentação de cada jogador a cada vez que a bola gira sobre si mesma, vendo a harmonia de um com o todo, no avança e recua, corre e anda, e olha e toma, e chuta e defende, e lança e cai, num balé mágico de pernas, troncos, braços e cabeças, chegaremos à conclusão de que a magia do futebol está na inteligência de cada um dos participantes. Uma bobeada, uma desatenção e todo um trabalho de anos pode ser desperdiçado, um único lance decide o vencedor ou o perdedor, dependendo do ponto de vista.
E os contendores estão lá, dentro de campo, limitados pelo ângulo de visão. A posse da bola pode ser rápida ou mais ambiciosa, dependendo às vezes do que ele não vê, mas apenas pressente, a movimentação às suas costas e é quando um drible mais ousado pode ser belo, mas fatal. Um lançamento preciso pode ser uma pintura e transformar-se, no entanto, em pesadelo. O movimento é a magia do futebol, seja ele lento, como eram os jogos do passado, ou rápidos como são os jogos de hoje. O raciocínio que envolve cada passo, no entanto, é sempre o da inteligência concentrada, que não pode vacilar, porque o adversário também tem o seu ponto de visão, o seu raciocínio e está armado para o bote fatal.
Grandes jogadores já disseram que saem de campo mais cansados mentalmente do que fisicamente. Os outros não o dizem, ou porque provavelmente não tomam consciência plena disso ou porque não são articulados o suficiente para dizê-lo. Mas a verdade é uma só: futebol é para cérebros privilegiados. Pelé, Puskas, Maradona, Rivelino, Zico, Zidane, Leônidas, Bekenbauer e dezenas de outros grandes craques e milhares e milhares de jogadores nem tão brilhantes, mas finos no trato da bola, já o provaram. Em campo, a concentração e a inteligência são mais importantes do que a força física. Mas, para que a inteligência brilhe, é preciso habilidade e treino. Muito treino.
Por isso, a Copa do Mundo, que atrai tanto dinheiro, tanto prestígio e fama para os países, jogadores, técnicos etc. que dela participam devia ser um torneio com um pouco mais de tempo para preparação das equipes. O balé de inteligência, conhecimento do jogo, percepção, concentração, entusiasmo e emoção de que vive um jogo de futebol merecia, numa Copa do Mundo, o torneio máximo, um tempo de maturação para que as equipes participantes mostrassem todo o seu talento. Sabemos que craque que é craque, que gasta no campo o talento que ganhou da natureza e desenvolveu com o trabalho, sempre vai brilhar, independente de qualquer circunstância. Mas um time não vive apenas do talento extraordinário: é preciso que, ao lado do fora de série, haja o jogador dedicado, o carregador de piano, ou o estrategista, aquele que pega a bola no meio de campo e arredonda a jogada para o craque impor a sua criatividade. Mas para isso, para que o balé se torne perfeito, para que surjam seleções como a brasileira de 58 e 70, como a holandesa de 74, enfim, como uma série de times que brilharam pelo talento e pela beleza de seu jogo, é preciso que táticas sejam assimiladas, que o entendimento se aperfeiçoe. O futebol agradeceria, e muito, se um calendário especial em ano de Copa do Mundo fosse providenciado pela Fifa, para que os jogadores tivessem mais tempo para se recuperar e se apresentar nos campos com toda a sua potencialidade.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 3:13 PM
Terça-feira, Março 14, 2006
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O CORINTHIANS
Filme inúmeras vezes visto: derrota para o São Paulo, queda do técnico. Antônio Lopes foi embora. Com sua fama de comandante durão. Com sua carranca e sua experiência. Por que não deu certo?
O Corinthians tem, sem dúvida, o melhor elenco do futebol brasileiro, pelo menos do meio-campo para frente. Craques como Roger, Tévez, Ricardinho, Mascherano, Carlos Alberto e Nilmar, este um goleador implacável, e carregadores de piano como Marcelo Mattos, Josinei e outros. Não tem, com certeza, uma boa defesa. Mas tem compensado com gols, muitos gols, essa deficiência. Então, por que não deu certo com um treinador experiente, como Antônio Lopes, como não deu com os anteriores?
Bem, eu acho que a equação é, ao mesmo tempo, simples e de difícil solução. O Corinthians desenvolveu a mística de time raçudo, em que jogador bom é aquele que sua a camisa, que dá o sangue em campo. A torcida exige isso. O que justifica o fato de Carlitos Tévez ter-se tornado ídolo: com seu jeito argentino de ir todas as bolas, de não ter medo de zagueiros e correr o tempo todo, conquistou facilmente corações e mentes corintianas. Mas, com um grupo de jogadores mais técnicos, mais refinados, a raça começa a ficar em segundo plano: prevalece a inteligência, as táticas de jogo, o entrosamento. Essa a fase de transição do Corinthians que técnicos como Lopes não entendem. Lembram o Parreira corintiano? O time tocava a bola maravilhosamente, envolvia o adversário com frieza, sob a batuta do Parreira. E não era um grande time, apenas um time que explorava todos os detalhes que envolvem uma partida de futebol. Pois é: Parreira foi embora e o time mudou, mas não esqueceu suas lições. Agora, os jogadores não sabem se correm como loucos ou se tocam a bola com inteligência e tática, porque técnica a maioria tem.
Então, qual a solução? Acho que só um técnico que faça um trabalho de organização tática do time, para fazê-lo adquirir um toque de bola mais preciso e, principalmente, priorize a posse de bola e o jogo inteligente conseguirá dar um jeito nesse time. A raça fica por conta do contexto do jogo, quando necessária. Por isso, a aposta em Paulo Autuori pode ser a saída.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 12:11 PM