REFLEXÕES
O futebol é uma caixinha de surpresas. O velho chavão não cai de moda. E esse é um dos motivos pelos quais nos encanta o velho esporte bretão, outra frase feita. Mas vive também de espertezas, de fórmulas, de renovação o bom e velho futebol Cada jogo é um jogo, graças à criatividade dos envolvidos. Fazer a bola rolar num gramado de 110m por 90m, entre 22 jogadores, com um juiz e dois assistentes é exercício muito mais mental do que físico. É claro que a preparação corporal, a aptidão para o controle da bola com os pés, a velocidade e assimilação das regras, das táticas e das possibilidades do jogo contam muito. Mas isso não é nada sem a inteligência específica para o esporte, sem a malícia e a capacidade de prever a movimentação de jogadores do próprio time e do adversário, da velocidade da bola e, até mesmo, da possível reação da platéia, cuja manifestação influi no ânimo e na vontade de quem está em campo.
Dizem que Garrincha tenha sido uma espécie de Forrest Gump do futebol. Mas, com a bola nos pés ou dentro de um campo, foi sempre um gênio. Ao driblar, por exemplo, o adversário sempre esperava algo novo e mirabolante e se preparava para isso. Garrincha fazia, então, o movimento de sempre, o mais simples, fingindo ir para um lado e indo mesmo para esse lado. Isso tirava totalmente a capacidade de compreensão dos joões que ele deixava para trás, às vezes sentados, sem entender direito o que acontecera. Baixinho, conseguia fazer gols de cabeça contra defesas bem mais altas. Outro gênio dentro do campo: Romário. Mas de outra natureza. Também baixinho, só aparece para o momento decisivo: o gol. Seus deslocamentos em campo são de uma economia espantosa. E isso também desconcentra o marcador ou marcadores. Quando pensam que ele vai se movimentar, ele fica parado esperando a bola, como se tivesse ímãs nos pés. Quando pensam que ele está longe da área e sem condições de levar perigo, aí mesmo é que a magia se realiza: ele tem a capacidade de surgir à frente de um lançamento e fazer gols que parecem extremamente simples, tão simples que o torcedor desabusado diria que até a sua sogra faria. Mas, por trás dessa simplicidade está a tal malícia, a capacidade de prever o que vai acontecer, mesmo nas situações aparentemente mais imprevisíveis.
Citei dois gênios exemplares, mas poderia citar muitos outros. E, é claro, poderia gastar horas falando do maior de todos, mas Pelé resumia em si tantas virtudes, que se torna inútil repetir ou analisar todas as suas façanhas. Poderia falar ainda de outro baixinho genial, Maradona, que tinha a quase genialidade de Pelé e a quase total irreverência de Garrincha. Mas, o que eu quero dizer é que a arte do futebol está na perfeita integração da ação individual, da criatividade do jogador, com a movimentação tática da equipe. O entrosamento vem da capacidade de cada jogador em compreender que ele pode, sim, criar livremente, desde que o faça em prol da equipe. Dribles, firulas, chapéus, toques refinados fazem do futebol a arte suprema do indivíduo, mas o passe, o deslocamento, os lançamentos e a antevisão da jogada tornam-no a criação humana mais complexa e mais bela dentre todos os esportes. Razão por que desperta paixões em todos os cantos do planeta. E, por tudo isso, torna-se um dos mais esportes mais difíceis e paradoxais, ao fundir capacidade individual com jogo coletivo. Não apenas uma caixinha, mas uma verdadeira coleção de caixinhas de surpresa..
ISAIAS EDSON SIDNEY - 10:05 AM
Segunda-feira, Dezembro 19, 2005
QUEIMEI MINHA LÍNGUA! OU QUASE...
No texto anterior, terminei fazendo a apologia de um jogo mais aberto como tendência do futebol mundial. Aí, fui assistir São Paulo e Liverpool, pela decisão do torneio da Fifa, realizado no Japão, agora com novo formato.
Está certo: o que vale é bola na rede. O São Paulo chutou três vezes e marcou uma. O Liverpool chutou 19 e não teve competência para fazer um só gol. Está bem: o Rogério Ceni fez algumas grandes defesas, mas, afinal, todo mundo sabe (menos os ingleses, claro) que ele é um grande goleiro e estava lá para isso mesmo, defender. Mas a questão não é essa. O que me preocupou foi ver o São Paulo jogar como o Once Caldas. Com um agravante: seu contra-ataque é pior do que o do time colombiano, aliás, se formos ser rigorosos, não existiu. A jogada de gol não foi de contra-ataque: foi uma bela articulação contra a bobeira da defesa do Liverpool. Mas, depois que fez o gol, os são-paulinos sumiram do ataque. Não, o São Paulo não jogou mal. Apenas não atacou mais. Deixou que os arrogantes ingleses tentassem mostrar futebol, o que não aconteceu. O Liverpool não é o grande time que pensa que é. A legião estrangeira que o forma só assusta no papel e, no campo, a quem se entrega a suas firulas inúteis e cruzamentos altos para a área adversária. O São Paulo também não é um grande time, não fez uma grande partida (se tivesse jogado um pouco mais, teria feito mais gols), mas soube explorar as deficiências dos ingleses e, afinal, o que vale é bola na rede.
Mas, há, ainda, um outro detalhe que me chamou a atenção: contra os louros, altos, atléticos defensores do Liverpool, de repente aparece um baixinho, negro, orelha de abano, assim, de repente, para deixar estarrecido e aborrecido o goleiro inglês e derrubar de vez a aparente inexpugnável barreira do english team. Acho que de nada adianta ter tantas qualidades físicas e não ter habilidade. E pior: não ter a inteligência que o armador são-paulino teve em penetrar como quem não quer nada pela tão decantada defesa do time inglês. Depois de onze jogos sem levar gol, quem diria que o franzino Mineiro seria o herói do jogo? E não foi só pelo gol, não: foi, também, pela raça, pela dedicação, pela humildade e pela forma como encarou os grandalhões. Sem dúvida, uma lição, mais uma, para o futebol inglês. O sempre arrogante futebol inglês. Que, um dia, tomou um golaço de outro negro: Jairzinho, na Copa de 70, e levou outro golaço, esse de mão, do irreverente e também baixinho Maradona.
Só espero que o esse jogo não sirva de exemplo para outros times. Retranca, ferrolho ou seja lá o nome de que dêem aos sistemas defensivistas devem ser banidos do futebol, para que esse esporte, o mais eletrizante do planeta, continue dando espetáculos de beleza, habilidade e inteligência em campo.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 1:36 PM
Quinta-feira, Dezembro 08, 2005
O QUASE ACABADO 2005... E EXPECTATIVAS PARA 2006
Para o futebol brasileiro, 2005 já vai tarde. Deixando apenas a certeza de que campeonato por pontos corridos é muito mais emocionante. Além, é claro, de ser mais justo. Quando não pintam maracutais!... Nem juízes/árbitros que, além de ladrões e incompetentes, querem aparecer mais com o apito do que os jogadores com a bola. Mas deixa pra lá: o ano está acabando, embora ainda reste alguma torcida por torneios como o Mundial da Fifa, no Japão. Um torneio pra lá de estranho, diga-se de passagem, mas vamos ver o que vai dar, antes de meter a colher de pau ou, em melhor, antes de meter o pau, mesmo, sem a colher.
Corações e mentes começam, portanto, a se ocupar apenas do grande acontecimento de 2006: a Copa do Mundo na Alemanha. Que tem tudo para ser um dos grandes torneios jamais promovidos pela FIFA em todos os tempos. Há grandes seleções e, pelo menos três, candidatas ao título: Brasil, Argentina e Alemanha, além da temida Sérvia e Montenegro e das poderosas equipes de Holanda e Portugal. E como em toda Copa do Mundo, espera-se e e, até mesmo, deseja-se que apareçam algumas zebras. Há também a famosa organização germânica, com seus belos estádios e sua vocação para a qualidade e a ordem. Além, é claro, de um fuso horário menos dolorido e doloroso, como foi o da Copa Japão-Coréia.
E há principalmente a expectativa da consagração e/ou revelação de grandes jogadores, esses os astros mais do que principais do torneio. Para isso, esperam-se e desejam-se muitas surpresas, em muitas seleções. Independente de quem venha a se classificar para a final, ou de quem levante a taça. Porque o que torna belo e grandioso o futebol, acima de todas as técnicas e táticas de treinadores, acima de qualquer patriotada, é a habilidade, a raça e a determinação dos atores principais e suas jogadas imprevisíveis, seus dribles sensacionais ou sua sorte incomum na hora de definir uma partida, fazer ou evitar um gol. O futebol, apesar de ser um esporte coletivo, só se realiza plenamente na habilidade individual de seus praticantes. E essa Copa tem tudo para revelar e/ou consagrar grandes nomes.
E há um outro motivo para se esperar uma grande Copa: a tendência do futebol mundial de abandonar de vez os sistemas retrancados, os ferrolhos, o jogar à la Once Caldas, com dez atrás e um idiota lá na frente, esperando um descuido para definir um partida a favor do anti-jogo. Se essa tendência se concretizar, teremos, sim, um campeonato mundial digno desse nome.
ISAIAS EDSON SIDNEY - 2:31 PM